A primeira ida a Coimbra neste ano de 2008:
Terça-feira, 8 de janeiro de 2008.
Um dia usual, ao volante do carocha de 1963.
Depois de uma noite calma, acordei assustado com o toque do alarme do telemóvel às 4.12H. Hora de números mágicos para um apaixonado volkswagen: 412.
Pouco depois tocou o confirmativo no despertador, e saltei de imediato. Dia de Coimbra... A roupa estava preparada de véspera, e foi fácil despachar-me.
Quando abri a porta e sai para a rua, não senti frio. Até estava um pouco abafado, alguma humidade no ar e chão molhado, mas suave.
Preparei o carro e sai para a avenida às 5.50H no km 309615. Segui para a bomba da BP da IC-19 onde meti 25 euros, apenas 16,15 litros, agora a 1,547 euros/litro... É a escalada imparável.
Há um ano atrás, o litro custava 1,36 euros... Subiu 13%, e o salário na mesma...
Demorei 4 minutos na bomba, sai de lá ao km 309623, às 5.04H e atravessei Lisboa numa madrugada húmida e com alguma neblina.
A noite não está muito escura, nota-se já os dias a crescerem levemente e cheguei à saída da portagem de Aveiras às 6.00H certas, no km 309689.
Foram assim 66km em 56m, à média de 70,71 km/h, apontando regularmente o ponteiro nos 80. Conforme se suspeitava, de novo a “prenda” do aumento do custo da portagem: passou de 2,00 euros para 2,05 euros, pela prestação do mesmo serviço.
Continuei pela estrada fora, algum trânsito a mais, tanto de camiões como de ligeiros, pois parece que anda tudo a fugir da auto-estrada, para não pagarem portagem.
Cheguei ao Chico da Batalha às 6.55H, no km 309754, com 65 km’s feitos em 55 minutos, na média de 70,90 km/h, exactamente como na auto-estrada. A condução do carocha é extremamente regular, e faço o mesmo andamento na AE ou na Nacional.
Na Batalha, o café estava ainda folgado, havia pouca gente presente, pois era cedo, e despachei-me em 19 minutos. Claro que também aqui o preço subiu: passou de 1,60 euros para 1,65 euros, o custo do mesmo “misto” e galão. Sai do café e limpei o tubo respirador, de novo entupido com porcaria e liquido. Voltei a montar o tubo, limpei o vidro dianteiro, sujo de escape diesel dos TIR, e arranquei para a estrada.
A fila em Condeixa foi encontrada às 8.14H no km 309818, tendo até aqui feito 64 km’s em 60 minutos, média de 64,00 km/h.
Note-se que havia parado uns minutos, talvez 5, na berma, ao ver num campo um antigo carro americano. Era vermelho, o que é compreensível, visto ter nas portas as letras de uma corporação de bombeiros. O capot entreaberto deixa suspeitar algum insolúvel problema do antigo motor, o mais provável um estrago da bomba de água.
Desbotado pelo sol, atacado pela ferrugem, só se mantém inteiro pela espessura elevada da chapa, e pouco tempo sobreviverá se ali for deixado muito tempo, em cima das ervas do campo, sem protecção alguma. Mais um antigo que dificilmente poderá voltar a pisar a estrada pelo seu próprio andamento.
Já na fila de Condeixa, pude apreciar o “feiticeiro de OZ”, o porsche carrera cabrio negro e automático que ainda continua à venda na Via Nacional, junto da pequena rotunda de acesso a Condeixa.
Via Nacional - Comércio de Automóveis
Estrada Nacional nº1, 923
4535 - 214 Mozelos – Vergada
Telefone: 227 459471
http://www.hiperstand.com/vianacional/index.php
Tenho que ver se telefono para lá, a ver se o “Feiticeiro” já desceu de preço. Como entrámos no novo ano, pode ser que tenham actualizado os preços, e claro, mais um ano em cima, mais o preço vai ter que descer, visto ser um carro recente, e não ter ainda a possibilidade declarada de estatuto de clássico assumido.
Cheguei à bomba da BP, na entrada de Coimbra, e parei o carro para descansar.
A aula é apenas às 10.30H e estou excessivamente adiantado. Parei ás 8.45H no km 309831, com 13 km’s em 31 minutos, média 25,16 km’s de fila. Limpai mais uma vez o tubo, desta vez pouco entupido, limpei de novo os vidros, os tampões e as laminas dos pára-choques. Tudo ficou a brilhar, e pronto para dar bom aspecto na entrada em Lordemão. 11 minutos depois, continuei, às 8.56H.
No meio da confusão matinal, aviei um BMW para o meu retrovisor.
Em faixas paralelas, vejo atrás de mim o dito mudar de faixa, só para não ficar atrás de mim, no arranque do semáforo. Olha-me para este... Deves estar a julgar que isto não anda.
O sinal muda para verde, arranco bem, alinho com o mongo ao meu lado, atraso os outros atrás dele, incluindo o bmw preto, e dou gás direito à curva apertada, que faço atravessado e já longe do assustado mongo, que trava e entope o andamento ao bmw. Assim, já longe e folgado, pude ver o tipo a tentar finalmente seguir o carocha, que afinal era o carro que mais andava daqueles todos, ainda adormecidos na manhã de Coimbra. Toma e embrulha.
Parei de novo, na Fucoli, só para descansar, e aliviar-me nas moitas, às 9.05H do km 309835, e às 9.15H estava a seguir. Cheguei assim ao destino de Lordemão às 9.19H do km 309837. O dia mantem-se de céu escuro e nuvens pesadas, abafado e quase de chuva.
O total da viagem somou 222 km’s, percorridos em 269 minutos, a que desconto 4m na BP da IC-19, 19m no Chico, 11m na BP de Coimbra e 14m na Fucoli. Assim, o total de tempo de andamento soma 221m, 3h41m, dentro do usual. A média global de 222 km em 221m é de 60,27 km/h.
As despesas na ida foram 25 euros de gasolina, 2,05 euros da portagem em Aveiras, 1,65 euros do Chico, no total de 28,70 euros.
O regresso iniciou-se às 16.51H, direito à bomba de gasolina da BP. Perto do Portugal dos Pequenitos. Cheguei lá às 17.02H, no km 309844, onde de novo abasteci 25 euros, 16,15 litros. Demorei só 3 minutos, e sai ás 17.05H.
O dia começa a findar, tenho que aproveitar o andamento mais favorável nestas últimas horas de luz. O céu está muito cenográfico, com nuvens raiadas de cor de rosa sobre o fundo azul pálido, anuncia um regresso sem chuva, e felizmente de piso seco, a permitir um pouco mais de ligeireza no andamento, e uma atitude mais relaxada, se bem que ainda e sempre necessariamente atenta.
Nunca se sabe o instante em, que algo inesperado ou de elevado perigo pode surgir dos múltiplos segredos que a aventura de fazer o percurso da Nacional 1 pode encerrar. Nunca há duas viagens iguais, Há sempre algo surpreendente, sempre um risco, um perigo, um alegria, uma realidade que nos faz ver a vida de outra maneira, e por isso crescer por dentro.
Talvez em suma, a isto se chame apenas viver. Sentir, reflectir, vivenciar alegrias e medos, perigos e alegrias, fazem parte de um quotidiano completo: o risco que a estrada permite e faz acontecer em cada terça-feira.
Passei frente à Lubrigaz às 18.05H, no km 309904, com 60 km em 60m, óbvios 60,00 km/h de média, o possível através do trânsito confuso de carros e camiões do meio da tarde. Continuei até parar, já escuro e com médios acesos, na expobatalha às 18.29H do km 309922, com 18 km em 24m, média de 45,00 km/h, limite usual de rallyes clássicos.
A pausa foi grande, para relaxar daa viagem. Limpei o tubo e os vidros, incluindo os faróis que estavam quentes, e fui ao WC, fui ver as montras em saldos, mas sem comprar nada, para poupar, e fui ao supermercado.
Aí, por 1,33 euros, consegui comprar um pacote de bolachas de água e sal, outro enorme de bolachas com chocolate, e uma garrafa de litro e meio de água. Nada mal.
Regressei para ao pé do carro, onde lanchei no estacionamento, num início de noite que não estava fria, e com o ar seco e favorável ao andamento do motor do carro.
A paragem foi de 46 minutos, tendo saído de novo ás 19.15H, após vestir-me preparado para o frio que haveria de surgir mais tarde. Assim, meti o blusão acolchoado por baixo do casaco, enfiei os dois cachecóis, levantei a gola e meti a boina. Estava pronto para a continuação.
O trânsito melhorou, para apanhei um grupo compacto de mais de 5 camiões TIR, que gerou alguma dificuldade. Dois deles, muito pesados com maquinaria em cima, marcavam o passo da procissão, pelos 60. Os nervos do restante trânsito era evidente, todos precisávamos pelo menos de 80 para seguir viagem de modo mais viável, e tudo se apressava em busca da oportunidade de ultrapassagem.
Como felizmente não havia muitos ligeiros histéricos pelo meio, foi possível fazer as manobras com alguma serenidade, apesar do inevitável risco inerente associado.
Manobrar o pequeno carocha pelo meio daqueles monstros de rodados com 16 rodas, com toneladas de peso, significa que basta um pequeno toque para que seja facilmente esmagado.
Colado na traseira de um deles, fazendo pisca com a devida antecedência, e movimentando o carro de forma suave e assumida, lá consegui evitar as proximidades de maior risco, passando agrupado com outros para uma zona de estrada mais folgada e menos pressionado entre camiões, facilitando assim o andamento a todos, de novo em torno dos 80.
É nestas situações que se percebe o ridículo da questão em torno das chapas de matrícula originais: aqui o que se quer é sobreviver e segurança acrescida. A maior protecção está na visibilidade do carro, com as chapas retro-reflectoras, e não num qualquer uso idiota de cintos de segurança, brincando aos “amarrados” dentro do carro, mas invisível pelo exterior.
Tenho as chapas brilhantes e limpas, o plástico da luz de matrícula transparente e limpo no seu interior, os farolins totalmente operacionais sem estarem gastos pelo sol, e bons reflectores interiores.
Assim, tenho tudo o que posso usar a meu favor, para me proteger nesta difícil e exigente estrada, no confronto com a pressão dos outros utentes.
Consegui assim chegar à Ponderosa, no km 3099775 às 20.03H, com 53 km em 48 minutos, média de 66,25 km/h. Não parei na Ponderosa. Apenas disparei o zero do cronómetro, anotei a passagem e segui para rallye. A estrada está seca, o carro vem em bom andamento, estou bem acordado, não parece haver agora quase ninguém na estrada, a sensibilidade dos pneus está boa, a pressão elevada, o óleo recente ao nível correcto. Vamos a isto.
Logo na recta da Ponderosa não pude puxar ao máximo, pois a rotunda seguinte exige uns limites precisos, a rasar a funda e perigosa valeta. A curva e contra-curva é feita de lado, todo inclinado, ao limite do possível sem travar.
Depois passei para 90 onde coubesse o andamento.
Ao início da subida da serra, as bermas da estrada evidenciavam a terra e lama acumulada das chuvas passadas, num ponto crítico, onde é costume a estrada ser varrida pelo lixo arrastado pela tempestade. Foi aí um dos pontos em que atravessei as cheias naquele difícil dia de temporal, em 2002.
Subi a serra enquanto perdia potência. O motor esforçava em quarta, e o ponteiro murchava no VDO, primeiro para 80, depois 70, depois 60, mantidos a custo. Finalmente o topo, a crista, a mudança de distrito e concelho. Agora é tudo meu. Quem não passou até aqui, já não passa mais. Só se tiver muitos cavalos, e mesmo assim, só cabem na recta da Ota.
Atrás de mim, ao longe ficaram um golf quadrado GTD e um Ford. Depressa desapareceram lá atrás, perdidos a tentarem fazer as curvas com o pé no travão.
Eu segui bem, controlado, as curvas nos limites, tudo sabido de cor, ensaiado e comprovado, a lição toda bem decorada. Estava confiante, podia ser finalmente um “clean shot”, se ninguém aparecer a estorvar.
Ia nos 100 quando apanho um atrofiado que se mete à minha dianteira saído de uma lateral, mas o diferencial de velocidades facilita-me uma passagem quase imediata. Ele até se chegou para a berma a ganir de medo. Ia-se borrando todo quando viu um carocha desaparecer à frente dele a mais de 100 km/h...
Já em Cheganças apanhei dois atrapalhados à minha frente. Assim que o espaço surgiu, o Opel Astra 1,9 ultrapassou o Nissan do velho, seguido pelo meu carocha.
O opel desatou a acelerar, e eu atrás dele, embora com algum desfasamento natural pela potência daquele carro de plástico. Mas nas curvas ele abrandava e eu recuperava terreno.
Ele via o carocha no espelho e aumentava a velocidade, mas eu não desarmava, e a distância ficava flutuante, mas sem perca significativa. Neste difícil troço completo, a eficácia depende mais do tipo de condução do que da potência de motor.
Assim chegamos á entrada da variante, ao topo com a rotunda antes de Alenquer. Virei para baixo, para o remate final até à fonte luminosa, a descida ajuda a dar cavalos ao carocha e dou um “final blast” assobiando o crburador por ali adiante. 110-120 ao ponteiro, os segundos a passar, o carro a acelerar, o opel a ficar maais perto á minha frente e,... já está: cronómetro parado nos 16 minutos e 56 segundos. Um recorde! 4 segundos abaixo dos 17 minutos.
Chegada ao final de troço cronometrado às 20.19H no km 3099996, 21 km’s feitos em 16 minutos, à média de 78,75 km/h. Nada mal, excelente.
Satisfeito com o resultado, fruto e somatório de esforço e sorte, segui para VFX.
Parei por momentos, frente a um portão iluminado, apenas para limpar o tubo, retirando a humidade e sujidade expelida pelo momento acelerativo, limpando assim o cárter de gases nocivos. Continuei para entrar na auto-estrada em VFX às 20.40H do km 310006.
Já tinha passado a marca de 310000km’s no VDO, onde é sempre reconfortante ver marcado o 1 seguido de 5 zeros. Um carro com tantos quilómetros assegura-nos que garante a sua eficácia, não é uma caixinha de surpresas de estreia de uma qualquer preocupante e caríssima novidade a sair do stand, que ninguém sabe a verdadeira qualidade.
Na chegada ao ticket da portagem, quando paro e retiro o título, ao meu lado para um hyundai coupé convencido que “é rápido”.
Até me deu vontade de rir: um hyundai? Isso não é um fabricante sul-coreano de electrodomésticos?
http://www.hyundai-world.com/
Arrancamos lado a lado, de ambas as portagens. Ele tem a surpresa de constatar o arranque do carocha, com a segunda a puxar aos 50.
Ele esforça-se à minha direita, e em pânico, consegue meter o carro à minha frente imediatamente antes de acertar no rail que o mandava para Norte.
Meto 3ª a puxar e estou montado na traseira dele, que não consegue fugir dali. Estamos na complicada e retorcida “curva dos macacos”, onde todos se torcem e despistam, e ele mete pé ao travão, a 1 metro da minha frente.
Ai jesus, tenho que lhe dar a lição toda: desvio à esquerda, passo-o, e refaço nova trajectória com o hyundai perdido da linha certa, atrás de mim. Saio do ramal de entrada e entro bem, até que finalmente ele surge envergonhaado no Hyundai, finalmente com a estrada livre, onde desaparece a esforçar e estragar o seu triste motor. Desapareceu de vergonha, depois do baile que levou nas portagens.
Sigo nos 80, de modo a carregar bem a bateria, e chego à portagem de Alverca às 20.50H no km 300019. Portanto, 13 km em 10 minutos, média de 78 km/h.
Daí em diante, já havia mais trânsito, embora seja habitual, desvio para o eixo norte-sul, depois o ramal de benfica, todos a 80 por causa do radar, iguaizinhos ao andamento do carocha, e entro bem na IC-19, onde não encontrei paragens. Assim, consegui concretizar a chegada a casa, às 21.25H no km 310062.
O regresso somou assim 225 km, efectuados em 277m a que desconto 3m na BP, 46m na expobatalha, 4m para o tubo, consistindo assim o andamento do regresso em 223m, 3h43m tal como na ida. A média geral é assim de 60,53 km/h.
O total de despesas somou mais 1,30 euros de outro lanche matinal, 6 euros de almoço com refeição completa em restaurante, 25 euros de mais gasolina, 0,60 cêntimos de portagem em Alverca e 1,33 euros de comida comprada no supermercado, e em parte usada durante o regresso. Soma isto 34,23 euros, para um total de despesas do dia de 62,93 euros, valor que custou esta ida a Lordemão, com 447 km’s percorridos.
Em termos de gasolina gasta, a verdade é que o depósito acabou com o indicador superior ao início da maadrugada, o que permite concluir que gastou menos que a totalidade de gasolina abastecida.
Assim sendo, foram metidos 50 euros de gasolina super 98, que veio a dar 32,46 litros para 447 km. Isto significa 7,26 litros/100km, o que está dentro do desejável, e abaixo dos valores previstos de fábrica. Presumo que por maior pressão de pneus e por atraso deliberado da ignição ao distribuidor: tem menos potência, mas menor consumo.
Tudo correu bem, o dia esteve fácil em termos de condução, sem chuva, nem vento, nem tempestade. Um dia fresco quanto baste para facilitar o motor, e sem excesso de trânsito. Também não vi acidentes, o que é raro e também agradável.
No dia seguinte, hoje de manhã, o carregador de bateria tinha completado a carga, o nível de óleo está bom, o tubo foi de novo limpo e foi dada uma limpeza à parte de dentro da tampa do motor, retirando alguma gordura e sujidade em excesso.
Depois, limpei os cromados dos tampões, os pára-choques e os vidros, e estava pronto para um novo dia.
O carro que vence é o carro que é útil, que dá o dia a ganhar ao dono, em estilo e glória, como só um volkswagen clássico sabe fazer.
A memória da nossa imagem perdura muito mais que o tempo da nossa passagem.
Um carocha inscreve-se na mente de quem o vê, define um estilo e modo de vida, dá uma lição de qualidade, e eternidade a quem apenas tem a curta visão automóvel de um produto descartável e consumível, amorfo e indiferenciado.
Viver a vida de carocha é viver a 100%, uma dimensão que nos relaciona com a estrada e a Vida, dando sentido ao nosso quotidiano.
Quem anda de carocha nunca está sozinho, sente no seu carro um amigo e um companheiro para as longas horas de estrada, e quanto mais longa a estrada, mais dura o prazer.
Ponham um carocha nas vossas vidas, e um sorriso no rosto.
Do vosso amigo, Miguel Brito, hoje e sempre, de carocha.
