“Não há problemas, apenas desafios!...” (MB, Nov2010)
Já passava das oito horas da noite. Estava farto e cansado do dia, e incomodado a conduzir a Gilda a caminho de casa. Às 17 horas cai o sol, escurece, e às oito da tarde é completamente noite. Sobretudo nesta segunda-feira chuvosa, em que as nuvens tapam a pouca luz da lua. Acelero, ao escapar da confusão do fim de dia em Trajouce, e meto por uma estrada de atalho, através do campo.
Estive com o meu miúdo num ginásio, onde ele estava todo contente a fazer exercícios e a dar cambalhotas. O meu tempo não foi totalmente perdido, pois os ensaios de música cubana meteram uma linha de jovens treinadoras a fazerem a coreografia à minha frente. Parecia o coiote bar... Ainda não percebi porque é que as boazonas vão ao ginásio, e as gordas não... Tanto melhor assim.
Por outro lado, as trintonas quando veem um pai a tratar da criança parece que ficam com o cio, fazem tudo para meter conversa, e é um sarilho conseguir sair dali. Sobretudo se elas forem bem feitas...
Resumindo, desiluda-se quem julga que o melhor local de engate é um bar ou discoteca. O que está a dar é ginásios, supermercados, e até a usual fila de tráfego... (esta conto noutro dia...)
Depois de sair do ginásio, e de conseguir sair da confusão, entrei pela estrada de atalho, e finalmente desembaraçado do trânsito acelerei para 70.
Não se deve fazer isto, mas vinha a conduzir em mínimos. A Gilda tem andado pouco, e para não gastar bateria mantive andamento quase sem luzes. Em ambiente urbano ainda se consegue, os candeeiros e iluminação geral resolvem o problema. Mas ali, naquela estrada perdida, no limite entre dois concelhos, não há candeeiros, nem luzes algumas.
Estou quase na zona mais apertada, tem umas curvas perigosas, e não se vê absolutamente nada. Acelero para 80 e puxo o botão para ligar os médios.
Em vez de ver o clarão iluminar tudo, simplesmente fica tudo apagado, a luz de ignição acesa, e o motor desliga-se...
Ligeiro sobressalto de pânico ao precisar de luz, e pelo contrário ver tudo repentinamente negro...
Mexo no botão para mínimos de novo, acende as duas luzes no velocímetro e funciona de novo. Olho para a estrada e não se vê nada do caminho, e volto a tentar ligar os médios, e de novo tudo se desliga. Não há hipótese de conseguir ligar de novo. Momento de pensar rápido...
Desengato e vou a setenta, o que permite ainda manobrar o carro por algum tempo, embora curto.
Primeiro problema: já não via nada desta sequência de curvas perigosas, com motor e em mínimos, e agora tenho que passar sem motor e sem luzes. Vai ter que ser à matrix: fechei os olhos e senti a força... E “em automático”, de memória, passei sem sair da estrada, estilo mestre jedi no star wars.
Segundo problema: onde parar? Já só vou a 50, resta pouco andamento e a estrada agora é ligeiramente a subir. O lado direito está acompanhado de um irritante muro e não há hipótese de encostar. Nada a fazer, e acaba por parar... Morreu.
Notam-se duas vantagens em relação aos caros actuais: o sistema de travagem é independente do motor e não perde pressão com o motor desligado, e o volante não tranca a direcção. Dois factores que permitem usar o carro até ao momento final de paragem.
Por outro lado, nota-se aqui a carência da possibilidade de ligar os quatro piscas ao mesmo tempo, extra hoje de série nos carros plásticos, provavelmente por avariarem mais vezes que o devido.
Mas e agora? Estou em péssimo lugar de paragem, vejo surgir um carro lá atrás e carrego no pedal. Descubro que ainda tenho luz de travagem, que funciona independente de tudo, e mesmo da chave, ele vê-me, desvia e desaparece. Preciso tirar daqui a Gilda rapidamente, pois a situação pode tornar-se perigosa. Saio do carro, olho em redor, e vejo mais abaixo uma entrada de uma estrada de terra do lado oposto. Pode ser que dê. Dou uma volta ao volante, e destravo. A Gilda embala, torce a direcção e desliza suavemente entrando de traseira na estrada de terra. Travo e já está, já sai da faixa de rodagem.
Mas e agora? Que faço? Descubro que deixei o telemóvel esquecido em casa, mas por outro lado tenho a sorte de ter uma lanterna na algibeira. Aponto aos fusíveis, mas parecem estar todos inteiros. Dou á chave e não há nenhum sinal, nenhuma luz acende. Vou à traseira e verifico os fios da bateria. Dou puxões e verifico que estão bem presos. Volto aos fusíveis, retiro o da ignição e esfrego-o no casaco áspero antes de o voltar a meter no sítio. Volto a sentar-me ao volante, dou à chave e já tenho luz de dínamo e de óleo. Dou à chave e funciona de novo! Vamos embora que está na hora!
Nem arrisco acender as luzes, já estou perto de casa e regresso às escuras. Os poucos que se cruzam comigo fazem-me sinal de que tenho as luzes desligadas. Como se eu não soubesse... mas funciona, e isso já não é nada mal...
Com tantos dias que ando por aí e logo tinha que acontecer hoje, num raro dia à noite, e com o Pedrinho comigo. Ele não se preocupou, nem se assustou. Há que manter a calma, continuar a falar com ele, rir da situação. Ainda resultou tudo com o mérito de sair reforçado o aspecto heróico do pai que resolve tudo...
- Olha? Parámos? – Perguntou ele quando tudo aconteceu.
- Tem que ser. Acho que a maluca avariou...
- Então arranja!
- Tem calma, que é preciso improvisar.
- Usa a ferramenta!
- Pois, mas nem sempre o alicate resolve tudo.
Mas a verdade é que tive sorte, e consegui voltar a casa. Raio de sorte, pois já tenho mais um assunto para resolver...
No dia seguinte, terça-feira, obviamente nada se solucionou sozinho. Primeiro, na oficina da Junqueira verificamos a bateria. Retiramos a dita para fora do incómodo buraco em que fica escondida, e descobrimos que não tinha água nenhuma...
Entrou água destilada até tapar os elementos e voltamos a prende-la, depois de passar lixa pelos bornes e pelo interior dos terminais.
Segui depois para a Auto Luso-alemã, onde a especialidade do Zé Santos é electricidade, e depressa se descobriu o problema: terminais dos fusíveis em mau estado e relé das luzes com maus contactos. Limpeza e spray mágico, e tudo voltou a funcionar normalmente. Menos um problema. Havia também fusíveis que não estando cortados, estavam quase derretidos nas pontas, e foram substituídos.
De regresso à Junqueira, aproveitei para dar os 100 na descida dos Cabos Ávila, para ajudar a recarregar conforme possível.
Isto dos carros antigos, ou carros velhos, como queiram, é sempre a mesma história: são fantásticos enquanto funcionam, mas um castigo e um stress quando falham. A capacidade de improvisar, a necessidade de saber e conhecer, são desafios que testam a nossa paciência, que podem fazer oscilar o nosso humor entre a alegria e o ódio, em fracções de segundo.
Mas talvez por isso mesmo, são um desafio complexo como a vida em si mesmo, em que a medida do homem se mede, não pelas comodidades e facilidades de que se rodeia, mas pelo modo como reage e se compromete com os desafios que enfrenta.

E no Céu brilha uma estrela por cima de mim...
Ou seja, não há problemas, apenas desafios...