"Gilda" - Splitscreen Pão-de-Forma de 1966

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Nirvana
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Re: "Gilda" - Splitscreen Pão-de-Forma de 1966

Post by Nirvana »

Miguel Brito wrote: Nas cheias de Lisboa…
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Melhor que uma visita ao oceanário. As formas transformam-se com a pouca eficácia dos limpa-parabrisas, que funcionam tão bem desligados em dias de sol! :mrgreen:

E os contras? Pelos relatos as safaris são bastante permeáveis a fortes chuvas... :|
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vw_freak
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Re: "Gilda" - Splitscreen Pão-de-Forma de 1966

Post by vw_freak »

Parabéns pela excelente história com final feliz na revista Motorclássico!

estevo
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Re: "Gilda" - Splitscreen Pão-de-Forma de 1966

Post by estevo »

vw_freak wrote:Parabéns pela excelente história com final feliz na revista Motorclássico!
Muitos parabéns Miguel, o texto está realmente delicioso.

aquele abraço
(o\ | /o)

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Miguel Brito
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Re: "Gilda" - Splitscreen Pão-de-Forma de 1966

Post by Miguel Brito »

Final Feliz
Artigo na Revista MotorClássico Nº45, de Novembro/2010

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Era uma vez um carro… que é mais que isso, parece um apetitoso pão de forma.

O motor fica escondido na traseira, a fazer aquela música de máquina de costura característica dos outros volkswagen. Porque o motor é semelhante, a caixa de velocidade desmultiplica a pouca potência de outro modo, permitindo mais força para a carga que poderemos transportar, mas reduzindo a velocidade possível. Mas não precisamos de andar mais depressa. Quanto mais depressa andamos, mais cedo o prazer acaba.

Ao contrário da maioria dos carros actuais, em que o que conta é chegar mais depressa ao lugar das férias, aqui a filosofia é outra: o destino começa assim que entramos a bordo.
Damos à chave e sorrimos. Começaram as férias!

Mas a minha primeira kombi não foi esta. Foi quando tinha 4 anos e brincava com uma igual, também azul, mas miniatura. Era um modelo 1/24, pesado, de metal, que ficou gasto na tinta pelo suor da mão pequenina a segurar nele para todo o lado que ia. Que ficou com as rodas metidas para dentro por gatinhar apoiado sobre ele, simulando viajar. O que era um sonho de criança tornou-se uma realidade em 2003.

Vi esta Kombi de 1966 pela primeira vez em 1997, quando pertencia a uma pessoa que não queria vender. Esperei, e voltei a encontrá-la já com outro dono, que me possibilitou comprá-la, e que lhe deu as actuais cores: azul claro e branco, cores com um espírito tão positivo, que é impossível não ser feliz com ela. Ganhou um nome, “Gilda”, baseada na letras “GL” de 1966.

Pouco a pouco, percebemos que faz parte da família, torna-se útil pelos mais variados motivos, porque transporta tudo lá dentro, porque permite um uso descontraído, porque se vê melhor a paisagem quando conduzimos devagar, evitamos auto-estradas de classe 2 e descobrimos recantos fantásticos de estradas clássicas, e aprendemos a ver o mundo de um modo diferente. Conduz-se lentamente, mas vive-se intensamente.

Os miúdos adormecem embalados pelo som ritmado e sincopado do motor, os desconhecidos acenam e querem comprar, os adolescentes gritam eufóricos, os namorados suspiram, os idosos recordam-se, as senhoras apontam, e todos vivem um momento mais forte porque viram algo que é mais que um carro, mais que um transporte, é feito daquela matéria de que os sonhos são feitos.
É um ideal de evasão feito realidade, uma rebeldia possível, um carro que nos ajuda a viver, e por isso nos reconcilia com a felicidade.

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E agora é Verão. De novo a liberdade das estradas empoeiradas da costa Alentejana.
Os lugares que não vêem no mapa, a sombra dos pinhais pela tarde quente. A caruma fazendo tapete debaixo dos pneus. O sal forte na pele e a areia grossa nos pés. O reflexo do pôr do sol no espelho dos vidros. A descida suave das dunas até ao mar com a carrinha na contraluz do poente. Estacionar e brilhar junto à praia.

Ver o mar através dos vidros safari dianteiros levantados, sentir o cheiro da brisa marítima e o grito das gaivotas rodopiando no céu. Ver o nível do óleo pela manhã e sentir o cheiro a octanas ao arrancar para a praia. Sentir o cheiro do pó de terra avermelhada do Alentejo cobrindo o ritmo dos dias sobre a carroçaria.

O tempo das férias, o tempo de suspensão em que os segundos ficam suspensos, em que todos os sonhos se renovam, em que tudo volta a fazer sentido. Em que o sonho existe porque transportado num carro eterno, de ontem, de hoje, e de sempre, uma Kombi. Mais que um carro, um modo de vida, uma mística própria. Algo que não se explica, mas que se sente.

Era uma vez uma carrinha pão-de-forma… e viveram felizes para sempre…
Afinal, ainda há histórias com um final feliz, porque nunca terminam.

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rmoreira
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Re: "Gilda" - Splitscreen Pão-de-Forma de 1966

Post by rmoreira »

Andei à procura da motorclássico,para ver a gilda, mas aqui em Ferreira já não vendem(mas vendiam) :(
Meios pequenos, já se sabe... :|

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Miguel Brito
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Re: "Gilda" - Splitscreen Pão-de-Forma de 1966

Post by Miguel Brito »

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“Dava tudo para ter uma destas!...” A frase era clara e saída da alma. O rapaz falava com os amigos enquanto passava a pé, num dia de chuva, frente à Gilda. Eu estava estacionado numa rua frente a um liceu, e saí a pé para junto de um muro ali à frente. Ia assim ouvindo os comentários de quem passava. E todos diziam qualquer coisa.
É espantoso como continua a ser um permanente sucesso, mesmo 44 anos depois de sair á estrada. A brilhar desde 1966…

“É dos hippies! Esta é a carrinha dos hippies!” Gritava outro para o grupo de amigos. Mas eles não estavam muito entusiasmados, nem sequer sabem o que são hippies. Conhecem punks, dreads, mitras, techno, góticos e outros que tais, que ninguém sabe quem são, mas hippies, não, isso não conhecem. É antes do tempo de terem nascido, portanto tão distante e ausente como o tempo do 25 de Abril, o Dom Afonso Henriques ou os dinossauros do parque jurássico. É tudo compactado no tal tempo desconhecido do que já passou, e que já não interessa nada, porque já não existe.

Mas ele insistia: “Os hippies é que têm estas carrinhas! Quem é hippie tem isto!”. Pela definição dele, acabo de descobrir que sou hippie… Antes isso que parecer taxista se guiasse um Mercedes 190 diesel…

“Isto é que eu queria: tirava-lhe o banco detrás. Metia-a alterada e ia viajar” É sempre a utopia do costume: se comprasse, se tivesse, se pudesse, se e mais se… Pois se não vão viajar com um carro normal, mais que capaz para isso, então acham que iam viajar comprometidos com as exigências e vivências complexas de um clássico?

São as desculpas da imobilidade: se tivesse uma carrinha era hippie, transformava-a toda, ia viajar pela Europa toda, era o rei do bairro, dos amigos, do surf e da festa. Mas como não tem, afinal não passa do mesmo básico do costume, arrasta-pé pela rua fora, a dar carolos aos amigos, a empurrarem-se mutuamente, sem sentido nem futuro.

Mas o mito persiste, a paixão leva-os a olhar a carrinha com os olhos de sonho, vendo não o que é, mas o que queriam que fosse. E assim, resta ainda ténue alguma chama de esperança, que o futuro possa ainda ser um lugar desejável….
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Nirvana
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Re: "Gilda" - Splitscreen Pão-de-Forma de 1966

Post by Nirvana »

Miguel Brito wrote:Mas ele insistia: “Os hippies é que têm estas carrinhas! Quem é hippie tem isto!”. Pela definição dele, acabo de descobrir que sou hippie… Antes isso que parecer taxista se guiasse um Mercedes 190 diesel…
O que eu me ri com esta... :mrgreen:
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seventropical
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Re: "Gilda" - Splitscreen Pão-de-Forma de 1966

Post by seventropical »

Gostava de ver o Miguel com os os cabelos compridos,camisa as flores,calça de ganga à boca-de-sino...etc...
Estilo hippie,a dizer " PEACE AND LOVE "..... :mrgreen: :mrgreen: :mrgreen:

Já estou a ver a foto ao lado da Gilda......... :mrgreen:

Agora mais a sério,são tão verdades as palavras do Miguel......... :wink:

Um abraço
seventropical..... :wink:
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nezz
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Re: "Gilda" - Splitscreen Pão-de-Forma de 1966

Post by nezz »

também já fui um puto desses. em '98 estive para comprar uma bay panel preta por 100contos, ali para os lados da Figueira. o dono ainda fazia uma atenção, só que eu na altura não tinha dinheiro. os anos foram passando e os "ses" mantinham-se por uma qualquer razão. até ao momento que ficaram à porta e parti à aventura das aventuras na estrada a bordo de um clássico pela (até agora) península ibérica fora
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Speed
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Re: "Gilda" - Splitscreen Pão-de-Forma de 1966

Post by Speed »

Todos fomos "putos desses"...

Felizmente, alguns conseguem realizar os sonhos... :!:


Outros, mudam os sonhos, mudam as vontades...
Felizmente, o Mundo é muito grande e tem espaço para todos os sonhos e todas as vontades! :) :wink:
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Sócio, por favor, estou concentradíssimo!!!

HUGO bOSS
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Re: "Gilda" - Splitscreen Pão-de-Forma de 1966

Post by HUGO bOSS »

Também fui um puto desses e comprei a minha primeira ba+y, uma panel, aos 14 por 25 contos... e bem que tentei arranjá-la e transformá-la em carrinha de campismo com a malta... infelizmente ela teve de ir para o céu dos VWs... :cry: :cry: :cry:

Hoje em dia, volvidos 3 anos... a Madalena existe na nossa família e já foi por duas vezes às Canárias (Gran CAnária e Tenerife) e a Portugal continental... os kms percorridos são já alguns e farto-me de ouvir frases assim, e gestos de aprovação e buzinadelas de saudação... mas nunca me julguei um Hippie... :mrgreen:

Força Miguel!
:wink:
Um abraço do meio do Atlântico

Hugo Pereira



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Re: "Gilda" - Splitscreen Pão-de-Forma de 1966

Post by SplitBusFan »

acho que já todos fomos assim, eu incluído também :mrgreen:

a memória mais antiga que tenho de uma split, é de uma branca à beira da EN-1 pouco depois da Venda das Raparigas, num terreno cheio de silvas do lado direito sentido Norte. Hoje está lá uma venda de artefactos em pedra e cimento. Devia ter uns 9 ou 10 anos quando lá passava. Depois lembro-me também de as ver nas praias menos splits e mais bays, e de querer ter também uma. A primeira veio aos 25 anos e a última aos 28 :D . E Pelo meio já houve direito a viajens mais ou menos loucas 8)

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Miguel Brito
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Re: "Gilda" - Splitscreen Pão-de-Forma de 1966

Post by Miguel Brito »

:lol: Eu também estive lá junto dessa branca das silvas...

Ao lado de um motel manhoso, e completamente vandalizada. Já nem caixa de velocidades nem motor tinha. Depois foi arrastada para uma ponta desse campo, e depois amassada. Mais tarde desapareceu, levada por algum sucateiro do ferro.

E ainda me lembro de ver uma abandonada em plena avenida 24 de Julho, em Lisboa. Tirei fotografia que foi publicada na Supervwmagazine... No inicio da década de 1990. O tempo passa rápido.
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Miguel Brito
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Re: "Gilda" - Splitscreen Pão-de-Forma de 1966

Post by Miguel Brito »

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Elas sabem o que é bom... Gilda power! oh, sim, sim...
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Miguel Brito
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Re: "Gilda" - Splitscreen Pão-de-Forma de 1966

Post by Miguel Brito »

Não há problemas, apenas desafios!...” (MB, Nov2010)

Já passava das oito horas da noite. Estava farto e cansado do dia, e incomodado a conduzir a Gilda a caminho de casa. Às 17 horas cai o sol, escurece, e às oito da tarde é completamente noite. Sobretudo nesta segunda-feira chuvosa, em que as nuvens tapam a pouca luz da lua. Acelero, ao escapar da confusão do fim de dia em Trajouce, e meto por uma estrada de atalho, através do campo.

Estive com o meu miúdo num ginásio, onde ele estava todo contente a fazer exercícios e a dar cambalhotas. O meu tempo não foi totalmente perdido, pois os ensaios de música cubana meteram uma linha de jovens treinadoras a fazerem a coreografia à minha frente. Parecia o coiote bar... Ainda não percebi porque é que as boazonas vão ao ginásio, e as gordas não... Tanto melhor assim.

Por outro lado, as trintonas quando veem um pai a tratar da criança parece que ficam com o cio, fazem tudo para meter conversa, e é um sarilho conseguir sair dali. Sobretudo se elas forem bem feitas...

Resumindo, desiluda-se quem julga que o melhor local de engate é um bar ou discoteca. O que está a dar é ginásios, supermercados, e até a usual fila de tráfego... (esta conto noutro dia...)

Depois de sair do ginásio, e de conseguir sair da confusão, entrei pela estrada de atalho, e finalmente desembaraçado do trânsito acelerei para 70.

Não se deve fazer isto, mas vinha a conduzir em mínimos. A Gilda tem andado pouco, e para não gastar bateria mantive andamento quase sem luzes. Em ambiente urbano ainda se consegue, os candeeiros e iluminação geral resolvem o problema. Mas ali, naquela estrada perdida, no limite entre dois concelhos, não há candeeiros, nem luzes algumas.

Estou quase na zona mais apertada, tem umas curvas perigosas, e não se vê absolutamente nada. Acelero para 80 e puxo o botão para ligar os médios.
Em vez de ver o clarão iluminar tudo, simplesmente fica tudo apagado, a luz de ignição acesa, e o motor desliga-se...

Ligeiro sobressalto de pânico ao precisar de luz, e pelo contrário ver tudo repentinamente negro...

Mexo no botão para mínimos de novo, acende as duas luzes no velocímetro e funciona de novo. Olho para a estrada e não se vê nada do caminho, e volto a tentar ligar os médios, e de novo tudo se desliga. Não há hipótese de conseguir ligar de novo. Momento de pensar rápido...

Desengato e vou a setenta, o que permite ainda manobrar o carro por algum tempo, embora curto.

Primeiro problema: já não via nada desta sequência de curvas perigosas, com motor e em mínimos, e agora tenho que passar sem motor e sem luzes. Vai ter que ser à matrix: fechei os olhos e senti a força... E “em automático”, de memória, passei sem sair da estrada, estilo mestre jedi no star wars.

Segundo problema: onde parar? Já só vou a 50, resta pouco andamento e a estrada agora é ligeiramente a subir. O lado direito está acompanhado de um irritante muro e não há hipótese de encostar. Nada a fazer, e acaba por parar... Morreu.

Notam-se duas vantagens em relação aos caros actuais: o sistema de travagem é independente do motor e não perde pressão com o motor desligado, e o volante não tranca a direcção. Dois factores que permitem usar o carro até ao momento final de paragem.

Por outro lado, nota-se aqui a carência da possibilidade de ligar os quatro piscas ao mesmo tempo, extra hoje de série nos carros plásticos, provavelmente por avariarem mais vezes que o devido.

Mas e agora? Estou em péssimo lugar de paragem, vejo surgir um carro lá atrás e carrego no pedal. Descubro que ainda tenho luz de travagem, que funciona independente de tudo, e mesmo da chave, ele vê-me, desvia e desaparece. Preciso tirar daqui a Gilda rapidamente, pois a situação pode tornar-se perigosa. Saio do carro, olho em redor, e vejo mais abaixo uma entrada de uma estrada de terra do lado oposto. Pode ser que dê. Dou uma volta ao volante, e destravo. A Gilda embala, torce a direcção e desliza suavemente entrando de traseira na estrada de terra. Travo e já está, já sai da faixa de rodagem.

Mas e agora? Que faço? Descubro que deixei o telemóvel esquecido em casa, mas por outro lado tenho a sorte de ter uma lanterna na algibeira. Aponto aos fusíveis, mas parecem estar todos inteiros. Dou á chave e não há nenhum sinal, nenhuma luz acende. Vou à traseira e verifico os fios da bateria. Dou puxões e verifico que estão bem presos. Volto aos fusíveis, retiro o da ignição e esfrego-o no casaco áspero antes de o voltar a meter no sítio. Volto a sentar-me ao volante, dou à chave e já tenho luz de dínamo e de óleo. Dou à chave e funciona de novo! Vamos embora que está na hora!

Nem arrisco acender as luzes, já estou perto de casa e regresso às escuras. Os poucos que se cruzam comigo fazem-me sinal de que tenho as luzes desligadas. Como se eu não soubesse... mas funciona, e isso já não é nada mal...

Com tantos dias que ando por aí e logo tinha que acontecer hoje, num raro dia à noite, e com o Pedrinho comigo. Ele não se preocupou, nem se assustou. Há que manter a calma, continuar a falar com ele, rir da situação. Ainda resultou tudo com o mérito de sair reforçado o aspecto heróico do pai que resolve tudo...
- Olha? Parámos? – Perguntou ele quando tudo aconteceu.
- Tem que ser. Acho que a maluca avariou...
- Então arranja!
- Tem calma, que é preciso improvisar.
- Usa a ferramenta!
- Pois, mas nem sempre o alicate resolve tudo.
Mas a verdade é que tive sorte, e consegui voltar a casa. Raio de sorte, pois já tenho mais um assunto para resolver...

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No dia seguinte, terça-feira, obviamente nada se solucionou sozinho. Primeiro, na oficina da Junqueira verificamos a bateria. Retiramos a dita para fora do incómodo buraco em que fica escondida, e descobrimos que não tinha água nenhuma...
Entrou água destilada até tapar os elementos e voltamos a prende-la, depois de passar lixa pelos bornes e pelo interior dos terminais.

Segui depois para a Auto Luso-alemã, onde a especialidade do Zé Santos é electricidade, e depressa se descobriu o problema: terminais dos fusíveis em mau estado e relé das luzes com maus contactos. Limpeza e spray mágico, e tudo voltou a funcionar normalmente. Menos um problema. Havia também fusíveis que não estando cortados, estavam quase derretidos nas pontas, e foram substituídos.

De regresso à Junqueira, aproveitei para dar os 100 na descida dos Cabos Ávila, para ajudar a recarregar conforme possível.

Isto dos carros antigos, ou carros velhos, como queiram, é sempre a mesma história: são fantásticos enquanto funcionam, mas um castigo e um stress quando falham. A capacidade de improvisar, a necessidade de saber e conhecer, são desafios que testam a nossa paciência, que podem fazer oscilar o nosso humor entre a alegria e o ódio, em fracções de segundo.
Mas talvez por isso mesmo, são um desafio complexo como a vida em si mesmo, em que a medida do homem se mede, não pelas comodidades e facilidades de que se rodeia, mas pelo modo como reage e se compromete com os desafios que enfrenta.

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E no Céu brilha uma estrela por cima de mim...

Ou seja, não há problemas, apenas desafios...
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