Qual o sentido de sofrer todas as dificuldades de manutenção, gestão e reparação da Gilda? O seu usufruto, a possibilidade de manter na estrada uma individualidade própria, uma identidade autónoma, longe do carneirismo colectivo.
Assim sendo, passados estes momentos difíceis, era tempo de brilhar, fama e glória à estrada lançada.

Uma noite no Palácio.
Decorreu esta noite, no Palácio Nacional da Ajuda, uma interessante sessão de apresentação do recente livro “D. Carlos de corpo inteiro”, da autoria do Dr. Miguel Metelo de Seixas e da Dra. Isabel Corrêa da Silva, publicado pela Editora Objectiva.
A obra foca de modo envolvente toda a vivência do Rei D. Carlos como personalidade multifacetada que era, homem do seu tempo, diversificado em interesses, e inserido numa conturbada época de mudanças, de que o seu trágico final, pelo regicídio, se torna prenúncio da mudança de regime que se iria operar.
O surgimento desta obra, no intervalo entre os cem anos da sua morte, em 1908, e a próxima celebração dos 100 anos de implantação republicana, visa colmatar uma lacuna, por muitos sentida em torno da realidade de uma figura emblemática portuguesa na viragem do século XIX para o XX.
E assim, após o surgimento a público deste recente livro, coube ao dia de hoje uma visita guiada pelos autores, ao lugar mais marcante da vida do Rei D. Carlos, onde viveu a sua infância, cresceu e reinou (entre outros lugares), o palácio da Ajuda.
Para o efeito, foram todos os convidados muito bem recebidos pela Directora Isabel Silveira Godinho, que entusiasticamente se assumiu como anfitriã de um espaço que é de todos, lugar importante na memória colectiva de um passado recente, ainda hoje fonte de apropriações e opiniões apaixonadas e contraditórias.
Recebidos em sala nobre, onde se verificou o enorme sucesso deste acontecimento, pois onde se esperavam 80 pessoas, compareceram mais de 140… Presentes vários arquitectos e elementos da Universidade Lusíada de Lisboa, diversos intervenientes comprometidos com a causa monárquica, antiquários e coleccionadores, e outras figuras conhecidas da sociedade.
A visita guiada foi ainda acompanhada por Carmina Correia Guedes, autora do livro “A educação dos príncipes no Paço da Ajuda : 1863-1884”, o que permitiu acrescentar descrições interessantes sobre a vivência daquela casa, como local de formação, estudo e divertimento dos príncipes.
Pudemos observar música ao vivo, recriando o ambiente vivido pela corte, bem como actuação de um mágico, que alegrava as noites da corte. Uma parceria da Nestlé permitiu um quente café aos visitantes, enquanto os fotógrafos da Caras e Lux enchiam a noite de flash.
Interessante observar inúmeras memórias do rei D. Fernando II (conhecido sobretudo pelo Palácio da Pena) que era avô de D. Carlos I, ainda que discretas. Inclusivamente se expõe um retrato da sua segunda esposa, a Condessa de Edla, Elise Hensler. Uma das almofadas de porta entre salas retrata a silhueta do Palácio da Pena, em topo da serra de Sintra.
De notar, numa das primeiras salas superiores do palácio, a colecção de arte japonesa, incluindo dois sabres de samurai. Existe também interessante armaria de espingardas trabalhadas, em armário respectivo. Contadores, caixas de gavetas, mobiliário diverso e avulso permite ajuizar de modo eficaz do modo como o palácio era vivido a nível de complementos e mobiliário. Ao contrário de outros locais (como por exemplo no Paço Ducal de Guimarães, muito fantasista e recente), existe aqui um manancial de informação e espólio ainda relacionado com os locais de destino inicial, com indicações precisas do modo como os espaços eram usados e mobilados.
Pelas pessoas presentes, muito informadas e conhecedoras, foi possível apreciar e recordar numerosos detalhes pitorescos da vida no palácio. Os “castigos” que o Rei D. Luiz infligia aos ministros que desagradavam, obrigando-os a assistirem a duas horas seguidas de música de violoncelo, esgotando a sua paciência.
Ou a rainha, que quando se referia ao complicado nome de Princesa de Hohenzollern-Sigmarigen preferia abreviar e simplificar, dizendo apenas, Princesa da caserna e Siga-a-marinha…
Ou notar o quadro que dá nome à Sala do Quadro da Rainha, em que a solidez da instituição Real permitiu que fosse apresentada sem precisar de nenhuma jóia: era Rainha e isso basta. Nem colar, nem pulseiras, nem anéis, apenas dois mínimos brincos discretos e quase invisíveis. Uma representação real sem quaisquer adornos, situação extremamente rara e reveladora de uma forte personalidade, para além de quaisquer jóias.
A sala do trono revela-nos a majestade que o alto tecto permite, onde brilha um lustre de tamanho adequado a tão vasto espaço. O maior valor do palácio não é a riqueza dos elementos presentes, mas sim a nobreza proporcionada por altos tectos, que destacam no perfil de Lisboa, o edifício branco em ponto elevado. A partir do seu interior, podemos alcançar vistas magnificas sobre o Tejo, parte da cidade e a margem oposta.
Diversas salas estão a sofrer obras de renovação, repondo alguns frescos tapados por intervenções mais recentes, valorizando elementos decorativos que têm sido restaurados, num trabalho evolutivo de que podemos já observar com resultados muito positivos, e muito atentos ao valor patrimonial existente.
Tivemos ainda o prazer de disfrutar de quentinhos pasteis de Belém, acompanhados por diversos vinhos de boa qualidade, que fizeram um momento muito agradável de convívio ao final da visita. Uma projecção de imagens referentes a fotografas e imagens de época, de D. Carlos, permitiu também uma vista da intimidade com a época de mudança de século.
Fica a sensação de uma monarquia seduzida pelo conforto burguês, pelas novidades e progressos do fim de século, resguardada de uma realidade mais pobre do país distante e rural, analfabeto e pobre. Genuinamente interessados no bem comum, mas filtrados da realidade objectiva pelo enquadramento palaciano, mediados por figuras ilustres, governantes, políticos, nobres, secretários, músicos, artistas, e outros, o mundo exterior chegava em diferido ao seu alcance, desfasando a sua vivência do ritmo real do país eternamente pobre.
No fim da sessão desta noite no palácio, ainda houve oportunidade de autografar o livro pelos autores presentes, e de proceder a um concurso de rifas, premiando alguns dos presentes.
Uma noite muito agradável, muito bem organizada e concebida, que permitiu vislumbrar uma amostra do que era a vida da família real em vésperas da mudança de regime, perceber o funcionamento de um palácio que era de facto uma casa de família, onde se vivia a vida em toda a sua plenitude, enquadrando as acções na realidade do seu tempo.
Um agradecimento a todos os que tornaram esta noite memorável, a começar pela Directora do palácio, aos autores, e à editora, bem como à completa equipe de apoio que levou a cabo esta realização.
Agradeço também aos meus ex-alunos presentes, à Margarida Silva, todos eles bastante interessados, e cuja paixão pela arquitectura nas suas diversas formas é prova da sua competência e dinâmica.

Note-se também a presença da Gilda, pão-de-forma volkswagen de 1966, meu meio de transporte escolhido para esta noite de festa, recém-saída de um complexo processo de renovação mecânica, com resultados muito confortáveis a nível de uso, e de melhorias significativas no comportamento em estrada, incluindo o funcionamento da chauffage, que nesta gélida noite invernosa, permitiu um nível de aquecimento razoável e adequado desembaciamento, promovendo assim a segurança na estrada.
Com sistema de travagem traseiro completamente renovado, caixa de velocidades nova, ajuste da suspensão dianteira, renovação da cavilha de comando da direcção, faróis renovados e focados, tudo flui de modo mais positivo, integrado e com facilidade de uso, promovendo o aumento da segurança activa, garantia de uma condução renovada e mais segura.
Uma noite para recordar, uma noite no Palácio Nacional da Ajuda.

A "Gilda" e o "Galo da Ajuda": a torre sineira com este nome possui no topo do campanário um catavento com um Galo. Neste terreiro encontra-se isolada esta torre, única parte remanescente de uma Capela Real e de uma Biblioteca e laboratório de Fisica, existentes aquando da "Real Barraca", edificio provisório de madeira que albergou a família real depois do terramoto de 1755.





[/center]