Ano após ano este flagelo assola o nosso país...
No ano passado, nas nossas férias familiares, a Madeira ardeu e não estávamos lá... este ano, novamente nas férias, novo incêndio, mas desta feita à porta de onde nos encontrávamos... E quero desde já agradecer a preciosa ajuda do Paulo Simões e do Nezz, que prontamente vieram-me ajudar, deixando as suas residências e família para trás para tal...
Presenciei a aflição das pessoas, o pânico, o desespero, a solidariedade, a entre-ajuda... uma série de sentimentos que é difícil de descrever em palavras...
Nos meus tempos de escuteiro, uma vez tivemos a apagar um princípio de incêndio devido a uma fogueira que foi deixada sem vigilância num acampamento de outras pessoas... tinha uns 15 anos, mas nada que se compare a isto...
Assisti completamente impotente ao avançar das chamas e de fumo... muito fumo... e vi diversos fogos iniciarem-se... ainda à luz do dia... acompanhados de muito fumo negro nesta fase... algo que para mim não é normal... a fazer-me lembrar gasóleo a arder... alguns acompanhados de uns estampidos... na sua grande maioria na direcção do vento... como deve ser para não levantar suspeitas...
No preciso momento que escrevo estas palavras, assisto na tv que um carro de bombeiros despistou-se... e parece-me que há vítimas... espero que não sejam mortais...
Fico a pensar, que a nossa lei é muito branda, para não dizer inexistente...
Sem politiquices pelo meio, não percebo o porquê da nossa Força Área já não combater os fogos... dizem que é para "alimentar o negócio dos helicópteros e dos aviões"... outros dizem que também o negócio dos equipamentos para os bombeiros...
O que vejo é um país a arder... um país com um interior cada vez mais desertificado... onde a pouca população vai envelhecendo e ficando sem forças e recursos para poder limpar os seus terrenos... Outros terrenos que já não há proprietários identificados... porque os seus donos já faleceram... e ou não deixaram herdeiros ou estes pura e simplesmente, a existirem, não querem saber dos mesmos...
Com o desenrolar do directo, parece-me que há vítimas mortais...
Assisti a actos de bravura de vizinhos e de populares... assisti a casas a arder... metade das mesmas devolutas ou de proprietários ausentes... fruto da desertificação do país... num país onde as estradas têm portagens electrónicas... a viaturas que já pagam o imposto de circulação... a proprietários que pagam n impostos... num país que se quer desenvolver...
Vi vivendas ameaçadas... vi um helicóptero a travar uma luta precisa com o fogo, num horário que já achava não ser possível ele estar autorizado a voar (se calhar não estava mesmo e ainda vai levar uma repreensão)... vi o desespero de pessoas a gritar por ajuda para salvar as suas vivendas... a sua vida, a vida de um familiar...
O lume foi avançando... e a dada altura, passadas horas, acalmou na zona, porque já pouco havia para arder...
Na tentativa de apagar algum lume, eu e o Paulo Simões, o Nezz e o meu sogro, constatamos em diversos terrenos, que para além do mato seco, haviam terrenos de oliveiras repletos de caruma dos pinheiros, não existindo nenhum perto... e lembrei-me que este é normalmente usado, à semelhança da casca dos pinheiros (menos inflamável) para evitar o nascimento de ervas... algo fácil... mas nestes casos um verdadeiro perigo...
Assisti ao início de um foco de incêndio a 50 metros de mim... com um estrondo ligeiro o lume facilmente propagou-se a uma oliveira... e ao caruma no chão...
Foi nessa zona que mais tarde vi o tal écran de telemóvel que o Paulo referiu... e quando lá cheguei já ninguém se encontrava... apenas uns galhos secos que eu já havia afastado jogados novamente para a oliveira...
Fomos solicitar ajuda aos bombeiros para apagar um outro foco que ardia já muito bem próximo de algumas casas...
Agarramos num carro e fomos à sua procura... e encontrámos-los na outra encosta... cansados... exaustos... a descansar após mais uma batalha travada... a beber e a comer algo para retemperar as forças. Essa zona já estava completamente controlada...
Aqui constatei diversas situações que tanto se fala na comunicação social... os bombeiros não eram do concelho... mas de longe... que haviam vindo ajudar ao combate... mesmo sem conhecerem a zona... Não haviam recebido ainda nenhuma informação sobre o incêndio no outro lado da encosta e tinham os carros já quase reabastecidos de água para seguirem para outro local, a dez kms de distância, onde algumas moradias estavam ameaçadas. Informados de que ali perto também haviam casas perto do lume, prontamente seguiram-nos e accionaram o combate às chamas...
Após meia hora, conseguiram extingui-lo e foram para outro local. Ficamos vigilantes, pois este local era a menos de 200 metros de nós. Víamos três pequenos braseiros... Após a sua saída, vi uma viatura ligeira, que infelizmente dada a distância e a escuridão, não consegui identificá-la... sem pirilampos... e apagou todas as suas luzes... Afirmei de imediato que aquilo não era normal... Após alguns momentos, a mesma arrancou e logo de seguida as chamas começaram... digo começaram, porque não foi um reacendimento... pois os pequenos braseiros lá continuavam, até mais fracos... a zona do novo foco era exactamente onde os carros dos bombeiros haviam estado estacionados... Aqui posso afirmar que foi fogo posto... uma vez mais...
Uma carrinha da GNR com mangueiras e um outro auto tanque apareceram passada meia hora e novamente apagaram tudo... ainda conseguimos ouvir as suas palavras para se despacharem, pois haviam casas em perigo na zona de Dornes...
Após seguirem o seu caminho... novamente vimos um isqueiro a ser acendido e algo semelhante a uma acendalha a arder... desta feita sem vermos nenhuma viatura... e foi nesta fase inicial que um popular lá foi apagar com um galho...
E mais poderia dizer... muito mais...
Não consigo culpar os bombeiros... como vejo muita gente fazer... eles são tão poucos para tantas ocorrências... muitas vezes com equipamento com falhas... carros com arcos de segurança mal concebidos... Exaustos... por vezes mal apoiados... pelos próprios populares que têm os seus pertences em risco... Pequenos reacendimentos que nada fazem e exigem que sejam os bombeiros a apagá-los... constatei que num local que ardia todos aguardavam pelos bombeiros, mas no entanto ninguém os tinha chamado... são homens que sendo voluntários na sua grande maioria, não são da zona... não conhecem os caminhos e atalhos como os locais e vão seguindo as coordenadas de GPS... e indicações de alguém eventualmente longe do local...
Não consigo perceber porque se investiu milhões e milhões num sistema de comunicações de emergência que não funciona pois tem os seus cabos a passar entre as árvores que se incendeiam, em vez de estarem no subsolo... e não se investe noutro tipo de comunicações, como o simples e velhinho rádio...
Não consigo perceber a apatia de tanta gente, que só com o lume à porta é que joga água para a casa, mas não limpou o terreno à sua volta... e até tiram fotos e filmam...
Não consigo compreender porque retiraram-se os velhinhos Puma do serviço, e não os aproveitaram para usá-los nos combates aos incêndios ou pura e simplesmente na vigilância...
Não consigo perceber porque os Merlin nunca foram encomendados com kits para os combates... nem ainda os possui...
Não consigo perceber porque os bombardeiros da Força Aérea que combatiam os incêndios deixaram de o fazer...
Não consigo perceber porque não se combate a desertificação do interior do país, com incentivos fiscais, ausência de portagens, subsídios para agricultura e reflorestamento ordenado com espécies menos "amigas dos incêndios"...
Não consigo perceber porque as autarquias não têm poderes (para não escrever tomates) para mandar cortar as árvores nas bermas das estradas e à volta das casas... e passado um determinado prazo, se não o tiverem feito, o trabalho é feito por estas, aplicando-se as contas por tal e multas...
Não consigo perceber as pessoas que não podendo pagar as limpezas dos terrenos, não os vendem... se não os cultivam nem os limpam, deveriam ser expropriados pelo Estado, que o administraria...
E como já são duas e tal da madrugada, para terminar um texto longo e confuso (ainda estou cansado)... não consigo mesmo perceber as nossas leis, que deixa impune estes incendiários (os do terreno e os de secretária) que deveriam ser condenados a 30 anos de cadeia, a pão e água, a limpar as serras do mato seco e a plantar árvores, de sol a sol, a pão e água somente, de modo a pensar no que fez, não só a nível material, mas também na quantidade de vítimas mortais que tenha feito ou que eventualmente poderia ter ocorrido... Se a nossa lei fosse menos branda, aplicando-se algo assim, o país deixaria de ter este pesadelo...
Obrigado mais uma vez ao PAulo e ao Nezz, bem como a todos quanto se preocuparam connosco de alguma maneira.
Desejo que para todos quantos estão a ser afectados de algum modo por isto tudo, que rapidamente tudo se resolva.