"Um Carocha, seis gerações"

Carocha 1300 de 1966.

Impressionou-me ver os dois carros lado a lado: o carocha e o rolls-royce. Não tenho a mínima dúvida qual dos dois carros eu preferia, e isso perturba-me, pois acho que muita gente não escolheria como eu o carocha. Serei anormal?

Bem, pouco depois o carocha mudava de lugar, e seguia para o concurso de elegância automóvel, onde estacionou mesmo ao lado de um Jaguar, também carro inglês, tal como o RR. O Alfelísio é que deve ficar satisfeito, a ver aqui dois dos seus amores...

Vi o dono, e aproximei-me para o felicitar pelo bom aspecto do seu carocha. Reparei que tal como acontece tantas vezes, a sua roupa condizia com as cores interiores do carro. Calças cremes e uma camisa vermelha, a combinar com a carroçaria Branco Pérola e interiores em vinil vermelho.
O dono, muito simpático, acompanhado da esposa, disse-me que o carro é um 1300 de 1966, e sempre na mesma família, embora vá já na sexta geração...
Espantado, perguntei-lhe como era isso possível, desde 1966? Contou-me então o seguinte:
- O carro foi comprado novo, na Guérin, pelo meu sogro, o pai da minha esposa, em 1966. Ora foi por essa altura que nós havíamos casado, e algum tempo depois ele põe o carro em nome dela.
Depois, o carro vem para meu nome, e vai já na terceira mão.
Mais tarde passei-o para o meu filho, e ele agora achou por bem passar o carro para o filho dele, ainda pequeno, o meu neto, que acaba por ser o sexto dono.
E sempre na mesma família!
Gostei da história, e olhava para o carro, vendo como estava não só em bom estado, mas com a particularidade de manter as características dele.

As jantes têm a furação de aberturas compridas dos 1300 de 66, e o interior tem a combinação de forras de portas e estofos vermelhos, que são muito exuberantes, e fazem do carro um modelo muito apelativo. (Uma boa ideia para o Rhino do Toiga...)

O rádio é de origem, é um Becker para vw, que possui o friso cromado com as pontas que encaixam no restante friso de tablier.
Outra característica é a forma dos bancos dianteiros, com o topo arredondado. Foi dificil refazer os estofos, que estavam muito estragados, e foi preciso comprar napa vermelha dos porsches, igual à usada pela vw, para completar o arranjo igual à origem.
Neste momento, o senhor teve a amabilidade de mostrar algumas de muitas fotografias que documentavam um extenso restauro feito ao carro. Via-se o chassis nu, sem a carroçaria, com tudo a ser refeito. Disse ele:
- Felizmente não estava tão estragado quanto isso. Não haviam muitos podres, de modo que a corrosão no chassis era apenas superficial, o que permitiu reparar em vez de substituir, ficando no entanto um bom trabalho, e o carro pronto a muitos mais anos na mão das próximas gerações.
- É então um trabalho para o futuro? – perguntei.
- Sim, curiosamente, não é uma acção revivalista e passadista, apenas em torno de um carro velho, é uma intervenção a pensar no futuro, nos meus filhos e netos, num carro que é de sempre, do passado, e feito herança para o futuro deles. Porque restaurar um carro assim, totalmente, já não é para mim, é para ter o gosto de deixar algo bem feito que me ultrapassa o tempo de vida. É um legado, e quando olharem para o carro, hão-de lembrar-se de mim, de quem o teve antes, e promove assim a união das várias gerações da família.
- Escuso de perguntar que para si não tem preço...
- Sem dúvida. Podiam oferecer-me todos os valiosos carros que aqui estão à troca, que eu não aceitava. Quando me perguntam se o vendo, porque o vêem em tão bom estado, eu digo sempre que ninguém tem o dinheiro para o comprar, porque simplesmente não está à venda.
Há coisas que o dinheiro não pode comprar: o passado, a história do carro ligada à minha família, uma relação de anos, isso não tem preço, são as nossas memórias, o valor do nosso bem estar.
Senti a vaidade do senhor, o orgulho do casal pelo carro e o afecto que tinham ao carocha. Ele disse que tem fotografias do carro com o filho pequeno ao lado dele, é um homem hoje, e o carro está de novo como era em 1966, à 41 anos atrás...
O ano em que a Ponte 25 de Abril foi completada (antiga Ponte Salazar), anos antes do Homem ir à Lua em 1969, e desde esse tempo recuado, tudo mudou menos o carocha. Esse continua como sempre, operacional e discreto, subtilmente exuberante nos seus interiores vermelhos, pronto a acompanhar as futuras gerações de donos felizes.
Sorriam os dois, posando ao lado do carro, sabendo que tinham ali um carro que era para eles mais especial que qualquer outro que pudessem ver.
Ele comentou ainda que não teria entrado nesta questão dos carros antigos com um carocha, por ser um carocha. Se fosse uma questão de opção ou gosto, a vontade pendia para um porsche como o do James Dean.
Na verdade foi o destino, o acaso que fez com que aquele fosse o carro de família que o acompanha há muito tempo, ganhando um elevado valor afectivo, que ultrapassa quaisquer valores monetários, justificando assim o avultado esforço financeiro e de dedicação ao restauro do carro. É um trabalho realizado a pensar no futuro, nos netos, e no tempo que há-de vir.
Por outro lado, para outras pessoas, que como eu deparam com o carro em causa, é a oportunidade de ver um modelo de carocha que muitas vezes se encontra negligenciado, com alterações diversas, de menor ou maior qualidade, mas que desvirtuam a realidade especifica do modelo 1300 de 66.
É uma data por vezes ingrata, pois não é suficientemente “antigo” para ser preciosidade e raridade, nem “moderno” para que não haja grandes intervenções.
Muitos acabam assim a servir de “bases” para as mais variadas alterações, que muitas delas acabam por remeter o carro em poucos anos ao abandono e desinteresse pelos próprios donos.
Por isso encontrar um 1300 de 1966 em bom estado, idêntico à origem, não é muito usual, e tem grande interesse de ser analisado em pormenor.

Talvez o ponto menos perfeito seja a apresentação do motor, embora não envergonhe ninguém, tem ligeiros detalhes que o distinguem de um carro “de concurso” e o definem como “carro utilizado”, o que acaba por ser também um elogio: faz o que é suposto fazer, andar.
Foi substituído o avanço do distribuidor, e os suportes dos cabos de velas à carcaça da turbina têm tendência a saltar fora, o que depois acaba por “sujar” um pouco o compartimento motor.
O tubo de cartão do ar do filtro não é o mais “bonito” e não condiz com os outros dois em preto.
No entanto, tem as carenagens todas no lugar, não há borrachas partidas ou em falta, e isso é essencial para preservar a longevidade do motor.
No interior da tampa do motor, apenas ligeiros vestígios de óleo pingado ao topo, eventualmente saído do respirador do filtro do ar, talvez resultado de nível do óleo em excesso na panelinha do filtro de ar. Nada de grave.
Foi bom aquele encontro com o carro e a sua história. Põe em destaque a feliz realidade dos carros clássicos: não são apenas objectos, são catalisadores de memórias e vivências, são a história das pessoas que os viveram e não apenas veículos. Ganham alma, contornos de vida e formam uma imagem histórica da sociedade que vivemos.
Por isso, quando hoje vemos tantas pessoas que recentemente aderiram à “moda” dos carros antigos, e importam um qualquer modelo já restaurado no estrangeiro, podem ter comprado um óptimo carro, mas não compram a história, o passado e as vivências, que o histórico e currículo de uma carro vivido na família poderá alcançar.
Esse é o valor maior que aquele carocha 1300 de 1966 pode ter, e esse é um tesouro que aquela família se esforça e consegue concretizar: um carro é mais que um carro, são as histórias das pessoas que o vivem que lhe dá o máximo valor.
Os meus sinceros parabéns.
“Ah, se tudo na vida fosse da mesma confiança que um volkswagen!...”