
A splitscreen do Luís The Bug já está nas Maravilhas da Junqueira para reparação! Entrou ontem, e hoje fui lá fazer uma vistoria e apoio ao andamento dos trabalhos (4 horas…).

Já estava tudo adiantado: saiu o motor, o que implicou retirar o pára-choques traseiro, a chapa pintada do resguardo do motor, desmontar a mola da porta do motor e suspendê-la para cima.
Puderam assim descobrir-se os defeitos mais evidentes:
- O rolamento de encosto raspava nas molas do prato, daí o ruído existente.
- As molas estão na afinação máxima, e em mau estado.
- E claro, para substituir isso, mais vale também trocar a embraiagem, semi-gasta.

Em termos da sujidade que pingava do motor, supostamente “fugas de óleo”, trata-se sobretudo de fugas de valvulina pelo eixo principal (retentor também retirado para substituição por novo), e uma borracha de manga de eixo que estava presa por uma braçadeira plástica (!) de ocasião… Há que meter uma metálica adequada à medida.
Quanto ao motor… Muito há que dizer. No geral, pela opinião do Luís, trabalha bem, gasta o que deve gastar de gasolina (cerca de 9 litros aos 100km), por isso não se vai intervir em nada vital de momento.
Refira-se que há muitos detalhes a rever, para uma segunda oportunidade. Para já, foi metido um parafuso novo para segurar uma chapa envolvente que estava a abanar, meia solta.

O mais evidente no motor é a “meia chauffage”… O trocador de calor do lado direito, desapareceu…
Foi trocado por um tubo dobrado em “U”, e o calor protegido do contacto com o motor por uma chapa de matrícula aparafusada e dobrada… O verdadeiro espírito desenrasca e sucateiro português. Quem vier atrás que resolva melhor…
Mais alguns detalhes: faltam borrachas de vedação do ar nos cachimbos de velas (só lá está uma), faltam os três encaixes de suporte dos fios das velas presos nos três furos da carcaça da turbina, falta a borracha de tampa do dínamo (para evitar perigos com faíscas), etc. Coisas para fazer como trabalho de casa no futuro. E claro, uma limpeza geral.
O motor é código letra “H”, a chapa de número de chassis é a original e correcta, pelo que o veículo não está “trafulhado” e tem um outro número de código 21678 que não sei a que se refere. Será cor, ou modelo de carroçaria?
O interior do compartimento motor, sem o motor lá metido permite verificar que esse espaço está em impecável estado, absolutamente novo, com pintura de origem em bom estado (azul “jeans”), bem como o depósito de gasolina que não apresenta nenhuma ferrugem.
Um outro trabalho a fazer no futuro é colocar um sistema de prender a bateria, para que não ande solta e sujeita a curto circuito por embater em algo.
Havia um fio da bobine danificado com o interior descarnado à vista… Foi isolado com fita adesiva.
Reparem que estive 4 horas na oficina de volta dos detalhes com o Sr. Jaime, a ver tudo o que se podia fazer para melhorar, tentando descobrir todos os defeitos. Quase arrisco dizer que fiquei a conhecer melhor o lado mecânico dela que o The Bug…
Como opinião geral, o facto é o seguinte: muito boa de interior, zona de condução, e compartimento motor, e excelente estado de chassis e plataforma, mas muito gasta e sucatada de mecânica e trens rolantes… Tem algum trabalho a nível de despesas em parte mecânica, que agora parcialmente se vai resolver, no mais essencial.
No interior, a zona de condução está muito boa, e original, com boa pintura. O interior tem umas forras a contraplacado, que tapam as grelhas superiores traseiras. Seria boa ideia comprar umas grelhas de construção civil, daquelas usadas nas casas de banho, para meter no contraplacado, na zona das grelhas, para que funcione melhor.
Voltando ao motor, a semi-chaufagem significa que o lado esquerdo estava acoplado, mas tem o cabo de comando partido… Não poderá fazer aquecimento.
O lado direito tem o tubo fechado com… um trapo amarrado.
O cabo do acelerador estava gasto e desfiado na ponta, difícil de voltar a ser usado: foi soldado a chumbo derretido e remendado conforme possível (para evitar custos de mão de obra para troca por novo…).
Foi limpa a cloche da caixa de velocidades: raspada a porcaria maior, depois com desengordurante, depois com gasolina a jacto de ar comprimido, e seca com papel.
Retirou-se o retentor para substituição.
Foram apertados os parafusos diversos de apoios de motor, e etc.
Foi retirada a valvulina da caixa e verificados os níveis nas caixas redutoras de ambos os lados.
Passemos ao trem traseiro:


Os tambores estavam calcinados e foi um trabalho do caraças para os retirar, sinal de que a operação não era efectuada à muito tempo. Foi preciso um “saca” especial para vw’s que há na oficina. O tamanho do saca mete medo, e pesa que se farta.
A boa notícia: os calços estavam novos, e os tambores com boa espessura, sem deformação e bons para reutilizar.
A má notícia: não trava nada! Os bombitos estavam bloqueados, sem funcionar…
Esse foi o momento em que me arrepiei, e senti medo só de imaginar a descida de Cheleiros a caminho de Mafra…
Claro que por não funcionarem é que os calços estão novos…
É preciso novos, e não há volta a dar.
Raspou-se os pratos, desmontaram-se as molas para limpar, foi tudo desengordurado e seco a pressão de ar, de um lado e do outro.
Os calços foram lixados à mão, e o interior das polies limpas. Eu gosto que sejam limpas com cimento, mas o Jaime não estava para aí virado.

O Jaime com a mão na massa. Ele não parava de abanar a cabeça, com ar de desaprovação:
- Ó professor, então explique-me lá uma coisa: você que é uma pessoa que tem estudos, e pelos vistos o dono desta também é estudante, porque raio é que se metem numa coisa destas? Isto é uma carrada de problemas, e por mais boa vontade que haja, isto é só ferrugem, está sempre tudo avariado, calcinado, estragado, isto é um poço de problemas!
- Então, se fosse novo não lhe trazia trabalho, não era? – respondi eu, a picá-lo.
- Pois, mas o caso é que empregavam melhor o dinheiro num carro a sério, moderno e sem problemas.
- Olhe que essa do “sem problemas” tem muito que se lhe diga… Entra aqui muito chasso moderno, e bem mais complicado que isto…
- Complicado não é, precisa é de paciência, esforço, boa vontade e euros. Mas para estar impecável, a verdade é que vai sempre faltar muita coisa…
- Deixe estar que temos tempo. Temos a vida toda para ir melhorando os carros. Eles duram mais que nós… São vw’s do antigamente, e esses são os únicos que vão chegar ao futuro.
E continuou o trabalho. Depois passou para o eixo dianteiro. Em termos de folgas, havia algumas, mas um novo aperto mais certo dos rolamentos melhorou substancialmente. Não pareciam gripados, e é menos uma coisa a fazer. Desmontou-se, limpou-se e remontou-se.
Nessa altura a roda que o Joaquim desmontou caiu-lhe em cima, ele praguejou, caiu, e ficou deitado debaixo dela. Ficou a espernear um bocado e a falar sózinho até se conseguir soltar da roda. Eu e o Jaime nem nos mexemos, e ri para dentro: é o vinho… Isto depois de almoçar é mais difícil…

O Joaquim é boa pessoa, apesar de copofónico. Mas quanto mais bebe, melhor trabalha. A abanar, treme encostado às paredes a falar sozinho e vai fazendo parte do trabalho pelo tacto das mãos, quando já só vê a dobrar, ou enevoado. É mais um elemento castiço desta oficina das Maravilhas da Junqueira. Nos arcos abobadados da oficina ecoava o fado dos “meninos à volta da fogueira” cantado pelo Paulo de Carvalho, e lá fora tocava a campainha do eléctrico amarelo que passava. Todo um ambiente de Lisboa antiga, onde a carrinha do The Bug e o meu Expresso ficavam bem enquadrados no ambiente da Lisboa antiga.

Bem, o que falta agora? Amanhã espera-se a chegada do material de substituição, que já foi encomendado, embraiagem, disco de molas, rolamento de encosto, retentor do eixo, dois bombitos traseiros, para montagem de tudo. Provavelmente tudo estará remontado e pronto depois de amanhã, na sexta-feira. Esperemos que a conta não saia muito cara, mas os trabalhos e materiais são muito… Mas finalmente, a carrinha conseguirá travar convenientemente…
Em breve, bons km's.
Com um abraço, MBrito







