Encontrei-a... Tenham em conta que a mesma foi escrita há uns anitos...
O “Ave Rara”
Quantas vezes já ouviram falar de uma história sobre a compra do 1º carocha como um simples carro de fim-de-semana? Aquele que só precisa dum pequeno arranjo e está de volta á estrada?
Pois bem, esta poderia ser outra história igual a uma dessas, mas felizmente não o foi.
1965
Estamos a 23 de Março de 1965 e em Wolfsburg saía da linha de montagem um “Carocha” com o número de chassis 115 652 551. Vinha equipado com um motor 1200cc de 30 cavalos. O seu número era o 3 998 796, um dos últimos dessa série (o fim da mesma deu-se com o número 4 050 000). No dia seguinte essa viatura era entregue em Dusseldorf.
Nessa altura, Herr Stocker era pai pela segunda vez. Para comemorar o facto, decide comprar um veículo novo para a sua esposa. A sua escolha recaiu sobre um Volkswagen Modelo 111, Standard – Limousine, que por sinal foi o modelo acima referido.
Foi o segundo carro da família, rodando pouco nas estradas alemãs. Em meados dos anos setenta o seu exterior foi pintado de laranja, uma cor mais em moda na época. Em 1977 foi transportado para a ilha da Madeira, em Portugal, onde os seus donos possuíam uma casa de férias.
A ausência de garagem foi rapidamente resolvida pela cedência de um espaço numa casa de um vizinho.
Aí, abafado, o “Carocha” ficaria á espera dos seus donos germânicos, que duas vezes por ano vinham visitá-lo.
1995
Passados trinta anos da sua aquisição, Herr Stocker, numa visita á Madeira, revela a sua intenção de vender o carro. Em conversa com o Sr. Andrade (genro do dono da garagem) este revela-lhe que não estava disposto a gastar muito dinheiro em baterias de 6 volts. Para o Sr. Andrade surgia-lhe a oportunidade de comprar um meio de transporte barato para a sua esposa. O carro do seu dia-a-dia era um Datsun, e de Volkswagens a sua simpatia era pouca ou nenhuma. Na realidade, este nunca tinha prestado grande atenção ao “Carocha” que “hibernava” na garagem da casa onde ele próprio vivia.
Stocker e a sua mulher, um pouco comovidos, entregaram-lhe as chaves e os documentos, pedindo apenas ao Andrade que este cuida-se bem da sua “filha”.
O plano a seguir seria o de pintar o carro numa cor mais discreta e dar-lhe uma revisão.
Por essa altura, um amigo disse-lhe que se restaurasse o carro seria o ideal. Podria inscrever-se num clube de automóveis antigos e beneficiar de um seguro mais barato.
A ideia pareceu-lhe boa e resolveu ir ao representante da marca com algumas fotografias, com o intuito de obter informações que o ajudassem no restauro.
Lá, a ignorância por semelhante modelo foi total e foi-lhe dito que o carro estava bastante alterado.
Um pouco desanimado, dirigiu-se a uma loja que existia na altura, especializada em Volkswagens e em veículos 4x4. Os dois sócios receberam-no de braços abertos, mas o especialista em VWs refrigerados a ar disse-lhe o mesmo: “-Um veículo muito incompleto e com peças de outras séries.” Após esta breve conversa, este sai. O Sr. Andrade volta a insistir com o outro sócio se não seria possível saber mais sobre o carro e das suas características tão bizarras. Este respondeu-lhe que o seu forte era o todo o terreno, mas indicou-lhe dois amigos que gostavam imenso de “Carochas” e que talvez pudessem ajudá-lo.
Esses colegas eram entusiastas do modelo na região, nomeadamente Hugo Pereira e Carlos Faria.
O Sr. Andrade marcou um encontro com o primeiro, de modo a apresentar-se e coloca-lo ao corrente da situação. Deslocaram-se então á garagem onde o Standard encontrava-se.
As diferenças
Ao pormenor o carro aparentava uma boa base de restauro. Nenhum traço de um grande acidente e raríssima ferrugem, sendo esta apenas superficial. Os 93.000kms marcados no velocímetro eram os que apenas o carro tinha percorrido desde novo.
Alguns pormenores eram intrigantes: porque não existiam os cromados no tablier, capot e estribos? Onde estava o buraco para a buzina no guarda-lamas direito? Os puxadores dos capots e das portas interiores eram cinzentos e não cromados, juntamente com os ventiladores. O forro do tecto era mais pequeno do que os outros modelos da mesma época. A pala para o Sol do passageiro nunca chegou a ser colocada. Nos buracos dos parafusos estão colocadas umas tampas em plástico com um símbolo circular com um V e um W… A forra da porta do lado do conductor não tinha bolsa para os mapas e a da traseira não possuía cinzeiro. O eixo da frente não possuía amortecedor de direcção e o volante era idêntico aos utilizados nos modelos de óculo traseiro oval. Os piscas da frente tinham a parte em metal pintada da cor da carroçaria, em vez de serem cromadas.
A pintura original ainda perdurava no interior, em contraste com o laranja exterior. Os tapetes originais em borracha apresentavam-se em excelente estado. O estofamento de fábrica ainda lá estava e era muito estranho para a época, pois havia sido utilizado até 1963. Era composto por parte em napa e outra parte em tecido de diversos tons cinza e preto.
O motor apresentava-se como sendo um simples 30 cavalos, do mesmo modelo usado na década de 50, início da de sessenta, bem como em motores industriais. Possuía uns espaçadores para estar acoplado a uma panela de escape dos motores mais recentes.
Perante tais dados, a conclusão a que o Hugo Pereira chegou foi a de que o carro estava no seu estado original, com excepção da pintura exterior. Com a presença na ilha há mais de vinte anos, e com apenas visitas esporádicas do electricista para mudança de bateria, não seria de esperar que anteriormente Herr Stocker tivesse feito o seu carro parecer mais velho e até mais feio. A tendência na época era a de tornar os “Carochas” o mais parecido com os das últimas séries.
O Sr. Andrade finalmente começou a acreditar que estava no bom caminho, dado que esta opinião era idêntica à do Carlos Faria.
Um trabalho para Sherlock Holmes
Iniciou-se então, provavelmente, o restauro mais estranho dum Volkswagen até à data nesta ilha. Partindo praticamente do nada, numa época pré-histórica (leia-se pré-internet), vários contactos foram estabelecidos, na esperança da obtenção de informações deste modelo desconhecido em Portugal.
De todos eles, o primeiro a surtir efeito foi o do dono original. Este confirmou a teria dos dois entusiastas de que o carro nunca havia sofrido qualquer modificação., com excepção da colocação de cintos de segurança à frente, para uma maior segurança. A única peça nova colocada (para além das famosas baterias) foi um motor de arranque. A nível de carroçaria, apenas registo para um arranjo de uma amolgadela num guarda-lamas e a pintura laranja.
Com o intuito de obter mais dados, Herr Stocker contacto o VW Auto Museam em Wolfsburg e graças à extrema atenção de Herr Neefe-Hansmann e de Herr Dr. B. Wiersch, muitas dúvidas foram tiradas.
A substituição dos elementos cromados por pintados, a presença de para-choques cromados e dos frisos ao longo da carroçaria cromados eram facilmente explicados: os materiais pintados eram para tornar os custos mais baixos, apesar da presença de alguns componentes cromados, que eram considerados como extras. Tudo isto foi confirmado por fotografias e documentos gentilmente cedidos pelo museu. É de salientar que nem nos seus arquivos existe a quantidade certa de unidades produzidas para este modelo. Apenas informaram que eram montados com os excedentes de séries mais antigas, com o mínimo de extras possível, sendo normalmente vendidos ao Exército Alemão ou a outras instituições governamentais. Bem poucos eram vendidos ao povo alemão e ainda menos exportados. O luxo era praticamente inexistente e muitas das peças tinham a referência inicial “111! Em vez do tradicional “113” dos modelos “Deluxe”.
Tiradas as dúvidas, restavam as dificuldades de encontrar o material correcto. As forras das portas e os tapetes que se encontravam no interior da viatura são os mesmos. Foram simplesmente lavados.
A carpete e o forro do tecto foram adquiridos através da “Himmel Service”, uma empresa alemã especializada em tecidos para viaturas clássicas alemãs.
O estofamento foi o maior problema, pois o tecido não existia em lugar algum. Novas pesquisas revelaram que havia sido descontinuado em 1963, devido a desgastar-se rapidamente, existindo em outras cores para além do cinzento, como em verde e vermelho. Foi igualmente utilizado nos VWs “Fridolins” em 1965, um modelo de carrinhas feito exclusivamente para os correios alemão e suíço. Mas o problema mantinha-se.
Finalmente surgiu uma solução, vinda de um amigo do Sr. Andrade em Portugal continental na pessoa do Sr. Abel Coelho, um outro grande fã dos “Carochas”. Este conhecia um proprietário de uma fábrica de têxteis. A sua persistência junto a este com uma amostra do tecido foi crucial para o fabrico do mesmo. No entanto, foram necessários dois anos para a sua chegada à Madeira. O resultado final foi espantoso e o melhor possível: o novo e o velho eram um só!
O Restauro
Enquanto decorriam todas estas pesquisas, o restauro foi iniciado. A carroçaria foi retirada do chassis e ambos completamente decapados. Qualquer traço de ferrugem foi eliminado. É de realçar que não foram muitos. De salientar igualmente que todos os guarda-lamas, portas, capots e fundos são os originais que acompanhavam o carro ao sair de fábrica.
A pintura aplicada na carroçaria completa foi idêntica à original, o cinzento Fontana L 595. Os “supostos” elementos cromados foram igualmente retocados em cinzento aço, outra cor original de referência L328.
Algumas borrachas foram substituídas, muitas delas apenas queimadas pelo sol.
Os estofos foram desmontados, pintados e forrados com o novo tecido, sendo a napa a original de fábrica.
A originalidade obrigou a que os cintos fossem removidos, dando a revelar a inexistência de encaixes originais para os mesmos no chassis. Nenhum pormenor foi deixado ao acaso.
1998 – O fim do puzzle
Em agosto, após a chegada do tão ambicionado tecido, o “Ave Rara” foi encaminhado para a inspecção automóvel, onde passou sem nenhum problema.
Era assim o fim dum longo percurso.
Nessa altura o casal Stocker veio à Madeira e não queria acreditar. A reacção da antiga dona foi a de sentar-se no lugar do condutor e coloca-lo a trabalhar. As lágrimas não tardaram a rolar-lhe pelas faces.
João Andrade não sonhava no que estava a meter-se quando comprou semelhante carro. A sua paixão aumentou daí para cá, tendo já adquirido outros modelos de “Carochas”. Apesar de tudo, o Standard é o preferido da família.
A menina alemã arranjou sem dúvida um bom “padrasto”.
Um abraço do meio do Atlântico
Hugo Pereira
"Tens o carro do ano?
Eu tenho o Carro do Século" ""Patina" my ass, that's rust!"
Mais um grande momento na nossa garagem, parabens ao pai e padrinhos. Não consegui compreender a troca das matriculas da primeira imagem para a segunda foto
Como qq Carocha...Um carro de linhas simples e ingénuas, um restauro cuidado e aprimorado.Um brinquedo bem estimado !
E artigo de revista(s)!!! Disfrute!!!
Rc
Na época vieram muitos standards para Portugal. Lembro-me de os ver no activo ainda na década de 80 ao serviço por exemplo do Ministério da Agricultura, PSP, GNR, Exército, etc.
estevo wrote:Na época vieram muitos standards para Portugal. Lembro-me de os ver no activo ainda na década de 80 ao serviço por exemplo do Ministério da Agricultura, PSP, GNR, Exército, etc.