Tenho um amigo que tem uma fábrica de móveis e um dia foi a França a uma feira de mobiliário.
Quando voltou contou-nos a uma mesa de café que fez um engate em Paris.
Como não sabia francês, pegou numa caneta e num bloco e desenhou um homem e uma mulher a dançar e mostrou à gaija.
Ela não vai de modas: pega-lhe no bloco e na caneta e começou a desenhar uma cama, duas mesas de cabeceira, uma cómoda, um roupeiro e..... diz-nos ele com ar de espanto:
Até hoje ainda estou para saber como é que a p..@ sabia que eu tinha uma fábrica de móveis!!!
O menor óculo tarseiro faz toda a diferença: ao guiar estes modelos mais antigos, a sensação atrofiante ao olhar pelo retrovisor é de estar a ver a estrada lá atrás, no fundo de um poço, através de uma televisão a preto e branco.
Portão traseiro maior e vidro maior dão muito mais utilidade e uso pleno do espaço disponível.
De novo a liberdade das estradas empoeiradas da costa Alentejana.
Os lugares que não vêem no mapa, a sombra dos pinhais pela tarde quente. A caruma fazendo tapete debaixo dos pneus. O sal forte na pele e a areia grossa nos pés. O reflexo do pôr do sol no espelho da Lagoa. A garagem do Conde, a primeira garagem de Portugal, em Santiago do Cacém... (Hoje é uma estação de rádio). As ruínas de Miróbriga, que se calhar nem é Miróbriga... A descida suave até ao mar com a Ilha do Pessegueiro ao fundo. O estacionamento da praia com as Vw's alinhadas. Ver o mar através dos safari levantados e sentir o cheiro da brisa marítima e o grito das gaivotas Larus Argentatus rodopiando no céu. Conseguir alimentar as Larus Fuscus no meio das vaidosas Argentatus. Ouvir Mozart ao pôr-do-sol enquanto os últimos raios fazem uma estrada de luz. Ver o óleo pela manhã e sentir o cheiro a octanas ao arrancar para a praia. Lavar a roupa nos tanques de Melides e esperar ao sol que a roupa seque.
O tempo das férias, o tempo de suspensão em que os segundos ficam suspensos, em que todos os sonhos se renovam, em que tudo volta a fazer sentido.
Entretanto, ainda consegui ir buscar mais um móvel:
Quatro gavetas, fundos em madeira boa, sem contraplacados manhosos, tudo certinho e sólido. Nem sequer tem caruncho. Só uns puxadores danificados, mas isso é fácil substituir.
São tantos, que já tenho que meter uns sobre os outros...
Hoje resolvi variar, e preparei a Gilda para sair, pois não tem feito quase km’s.
A ida para Lisboa foi às 10.55H e às 11.14H estava a concluir os 23km. Isto dá uma média de 72,63 km/h para os 19m de andamento, o que indicia o pouco trânsito em presença. Ao contrário dos dias anteriores, em que precisei de andar na IC-19 em “hora de ponta”, chegando a levar hora e meia, a possibilidade de um momento mais oportuno torna tudo mais fácil. Verificando que apenas andei até aos 90km/h no velocímetro, isso demonstra como foi possível manter um ritmo constante na quase totalidade do percurso.
Assim, hoje tenho a vantagem de ter o “escritório” comigo, fazendo do seu interior um espaço privado dentro do recinto do estacionamento. Um escritório móvel personalizado. Nos intervalos desta tarde, posso abrir a mesa desarmável dentro do salão, e sentado em conforto tratar de diversa papelada, organizar o planeamento, e usufruir da polivalência interior de um espaço que não existe nos enormes SUV “multifuncionais” actuais. Por demais atulhados de gordos bancos, cintos de segurança por todo o lado, rebatimentos acrobáticos de bancos e extras que ninguém pediu, servem para pouco quando parados, excepto para estorvar. Pelo contrário, a Gilda possui o aproveitamento máximo do espaço interior, providenciado pelas estreitas portas e magros painéis, que nem sequer estão forrados… Mais leve e fácil de usar, o consumo anda agora muito aceitável.
A estranha combinação de grande motor 1600 com pequeno carburador estrangula o consumo e permite meter 10 euros de 95 octanas, ou seja 7,70 litros para fazer 80km, com o consumo associado de 9,62 litros/100km, tal como é suposto pelos manuais de origem.
Para além disso, e tal como é hábito, é a loucura ao chegar ao destino.
Ainda antes de chegar ao parque da universidade, já na rua todos apitam ao verem a gorda da Gilda. Ao chegar ao portão, o costume: as conversas param, os dedos no ar apontam, os sorrisos abrem-se.
“Isto é que é um carro”
“Que loucura!”
“Espectáculo!”
“Bué de fixe!”
“Bacano! Está nice!”
Conduzir uma pão de forma splitscreen com mais de 40 anos é o melhor e mais directo modo de tornar os novos Audis e Mercedes a estrear, em carros invisíveis…