Ui! Que carro tão moderno! Até tem intermitentes, tempos medidos, temporizador, e luz de leitura! Eu se entrasse lá dentro tinha que tirar um curso de vida moderna primeiro...
Só para não ficar atrás, fui ao decatlhon e comprei uma lanterna de led's que dizem que dura uma eternidade com consumo mínimo (e sem me ir à bateria do carro) e meti-a dentro do carocha. Agora, se quiser, também já tenho luz de leitura, e basta pendurá-la no retrovisor.
Quanto ao intermitente do limpa-vidros, depende do número e velocidade com que ligar e desligar o botão...
Para 1963 só tem uma velocidade, ou melhor, duas, desligado e ligado, e é preciso apanhar-lhe o ritmo para o desligar em baixo, senão fica espetadinho para cima mesmo à frente dos olhos.
Por falar em hastes de limpa-vidros, e porque vem a propósito, aproveito para dar mais uma "seca" e recordar aqui uma história que me aconteceu, com o curioso nome de
É do cartaxo!
Era dia 17 de Dezembro de 2002, terça-feira, e tenho a manhã ocupada com uma ida à Câmara de Oeiras que está marcada há mais de um mês, para as 10 e meia da manhã.
Eram 10 e 30 certas, entro na C.M.O para a reunião combinada. Para minha surpresa fui logo atendido, cortesmente e com eficácia, o que muito se deseja e pouco se obtém nos dias actuais. Fiquei satisfeito, e despachado muito depressa.
Assim sendo, ia a caminho de casa quando desata a chover muito, e com um frio gélido.
O limpa vidros bailava da esquerda para a direita e vice-versa, enquanto eu acelarava para que ele não perdesse força eléctrica.
De repente... Parou!
Repentinamente, e sem um som que fosse, parou, e fiquei com cada haste virada para seu lado...
E esta, hein?!
Tramei-me...
Dúvidas? Não há, nem pode haver!
Virei o carro, e sem parar arranquei decidido na direcção de Cascais direito ao Sr. Leonel e ao Sr. Vítor, os meus electricistas favoritos.
Olhava firmando a vista através da chuva, que felizmente era transformada pela velocidade numa massa gelatinosa a escorrer pelo exterior do vidro, tratado com o mágico produto X-RAY, que permite ver através da chuva sem usar escovas de limpa vidros.
Parece magia, e ninguém de bom senso acreditaria nisto, mas o facto é que resulta.
Só visto! E depois, quem vê passa a querer também.
O problema é que em Portugal só se vende numa loja perto do Técnico em Lisboa. Numa loja onde a dona é uma senhora muito simpática, e muito competente, que sabe tudo sobre os produtos que vende. Acabamos sempre a comprar mais qualquer coisa, que afinal, até faz também falta.
O único sítio onde também vi este produto à venda é nas lojas
www.conrad.de na Alemanha, mas que infelizmente, não vendem para Portugal.
No entanto, se os Deutschlanders compram, então é porque realmente funciona. O que é bom para alemães, também serve para os Portugas.
Pouco depois estava a entrar na oficina dos electricistas. Parei o carro na entrada, sai e cumprimentei o Sr. Vítor:
- Então o Sr. Leonel não está?
- Não está, mas estou cá eu! Então o que o traz por cá?
- Eu, nada, mas o meu carro precisa ali de uma coisa... – e apontei para o carro, ao mesmo tempo que ele também olhava.
- Ah! Já estou a ver – disse o Sr. Vítor – É do Cartaxo?
- Como? – estranhei eu.
- É do Cartaxo! É isso não é? – e ele insistia com a coisa.
- Do Cartaxo, como? – pensei que alguém estava a ficar louco.
- Então não vê que é do Cartaxo? Está um para cima, outro para baxo!...
- Pois, pois! É isso. São as hastes do Cartaxo, como um par de cornos a ornamentar o vidro... Veja lá o que é que se pode fazer.
- Tudo! Aqui faz-se tudo menos milagres! Esses deixo para a oficina de Nossa Senhora de Fátima...
E vamos ver do que se trata. Podia ser apenas um desarranjo das hastes, que tivessem algum parafuso frouxo. Mas não era.
Então, vamos a mais trabalhos: desarmar o forro posterior do tablier, sacar tudo para fora.
O Sr. Vítor vai buscar um papel e toma nota dos fios que prendem em cada terminal do motor do limpa-vidros.
Depois, desarma esses fios do motor e retiramos, não sem algumas acrobacias, o motor de dentro da mala do carro. É que aquilo entra tudo um pouco à justa.
Já cá fora, olhamos com atenção para aquilo. Uma das barras de comando está torcida porque frágil. Alguém em tempos terá soldado uma barra que se havia partido por ferrugem, e não deixou de ficar frágil nesse local.
Voltamos a endireitá-la e eu recordo uma mola que ali havia e que terá desaparecido.
Vamos à procura no carro, e eis que ela aparece: estava caída porque partida de ferrugem. O Sr. Vítor conserta a mola, fazendo uma nova fixação e montando-a de novo no sítio certo.
Fiquei com o encargo de tentar quando possível, encontrar uma haste daquelas que não esteja partida, nem remendada, por forma a poder ser substítuida como deve ser.
E de novo se voltou a montar tudo. Ficou impecável, sem abanar, retrocedendo sem bater em nada, e sem fazer barulho nenhum. Excelente!
- Então agora está bom, até se estragar outra vez! – disse ele no gozo.
- Pois, pois! Mas agora tenho garantia aqui da oficina.
- Claro, tem garantia até passar a porta.
- Pronto, está bem! Prometo que estrago que é para poder cá voltar!
E lá ficaram mais 10 euritos para pagar a conta do arranjo.
Mas o meu alívio foi grande, sobretudo sabendo que no dia seguinte ia ter 450 km de estrada a ir e vir de Coimbra, e previsivelmente debaixo de chuva.
Ainda assim, e depois de pôr o carro na garagem, ainda estive a massajar as borrachas das escovas com creme Nivea, para ficarem mais macias e funcionarem melhor.
Quando cheguei a casa depois da aventura “do Cartaxo”, eram 12.30H, e assim, curiosamente, entre a reunião que foi muito rápida, e o imprevisto que surgiu, não houve nenhum atraso relevante para a minha programação dos trabalhos para este dia.
Isto há cada coisa de dia que nem de noite.
Abraços a todos, boa chuva e um bom par de hastes a funcionarem bem.
MBrito.