Quarto de "meninas"*
(* Por meninas, se entendem aquelas senhoras que gostam de abrir a perna na pensão moderna...)
Ai Jesus! Há cada história...
Estava eu tão bem a vir de regresso a casa pela Nacional 1, quando em conversa com o Ricardo Serpa ele me dizia que queria de novo uma carrinha, seja Split seja Bay.
- Olha que és capaz de estar com sorte... É que está uma Bay cor de laranja aqui à venda, e é perto daqui.
- Então vê lá se me sabes o preço e os detalhes!
Despedi-me (mandei-o para o caraças) e desliguei o telemóvel, única maneira de nos mantermos entretidos enquanto andamos a 80, meios a dormir com o calor, em plena Nacional 1 infestada de lentos camiões TIR carregados.
Polícia e GNR, esses, nem vê-los, ou quanto muito aparece um carro ou outro parado frente a uma tasca, à beira da estrada...
Um pouco à frente, lá estava o recinto: um terreno com uma velha e enferrujada vedação à volta, dois carochas parados, um com uma roda em baixo, um pneu velho vazio, e um pouco de parte, no meio de camiões sujos e reboques esquecidos, uma carrinha VW, uma Bay pintada em exuberante cor de laranja.
Parei o meu carro cá fora e segui a pé, olhando desconfiado com receio de algum cão sarnoso que aparecesse.
No meio do sempre presente cheiro a óleo e peças velhas, um grupo de três maduros discutia não sei o quê, em torno de um motor caído no chão, que já viu melhores dias.
Ninguém parecia muito interessado em fazer o que quer que fosse naquele destroço, por isso ficaram aliviados quando eu surgi, boa desculpa para pararem o nada que estavam a fazer e parecerem ocupados a atenderem-me.
Cumprimentei, dizendo boa tarde, e o principal deles, presumindo-se o responsável, avançou uns passos a inteirar-se do que seria que eu pretendia, parecendo deveras surpreendido por alguém desconhecido aparecer ali dentro.
Na realidade, o local parece apenas ser um recanto para os amigos falarem de gajas, de futebol, e dizer mal da vida e dos políticos. Ele aproximou-se, as calças de ganga completamente sujas de óleo, modo directo de mostrar “que trabalha”, e quanto mais sujas, “mais experiente”...
Percebi logo que estava tramado, eu que apareci de calça creme limpa, camisa engomada às riscas azuis e brancas, completamente vestido como um “tótó da cidade”. Estou tramado para “ir ás compras” assim...
- Ó Chefe, então aquela carrinha ali adiante está pra venda?- Perguntei logo sem lhe dar tempo de pensar.
- Então não haveria de estar? Ai pois está, e pode ser sua!
- É preciso é que eu a pague! – E sorri forçado, a fingir que achava graça.
- São doze mil euros!
- Doze mil? – Nem dois mil, pensei eu... – Então e é de que ano?
- Ai isso não sei! É do meu irmão, é dele. O gajo é maluco! Isso até cama ele meteu lá dentro! – E ria-se com ar de malandro.
- Ai está para campismo? – Fiz-me de parvo, que é o melhor.
- Não! Tem cama, digo eu. Tem uma cama metida lá dentro. Está toda à maneira.
- À maneira? À maneira como? – Continuo parvo...
- Assim a modos que toda refeita. Ele tem gosto nisso, está toda preparada com uma cama lá dentro.
- E funciona?
- Então não? É melhor a abanar que a andar, mas isso já se sabe para que serve... – E piscava o olho e ria-se – São coisas do sacana do meu irmão.
- Pois, estou a ver. Eu vou só ver mais de perto. – E afastei-me dele, direito à carrinha.
Espreitei ao vidro e vi os estofos feitos em riscas laranjas e preto, o tablier todo queimado do sol, e efectivamente na zona de trás apenas havia uma enorme cama de casal, também toda em laranja e negro, rodeada de cortinas fechadas cor de laranja a toda a volta.
Naquela hora quente do dia cheio de sol, imagino o calor lá dentro... E a tonalidade laranja que as cortinas dão a tudo, sugere um ambiente, enfim... quente.
Muita coisa se deve ter passado aqui dentro...
Um belo quarto de putas é o que isto me saiu...
Não sei se é isto que faz falta ao Ricardo. Mas por este preço, de certeza que não se deve vender tão cedo. E um hotel é mais barato.
Olhei para as rodas, pneus gretados e mais que velhos, as jantes todas pintadas a direito de policromo cinzento: pernos, tambor, jantes, chumbos, válvula... Foi tudo a direito menos o pneu, e isso porque meteram fita adesiva “para isolar”. Mas claro, isso não interessa nada: depois mete o tampão novo cromado por cima, e esconde toda a miséria.
Quanto mais de perto se vê, menos convence. Mas aquilo, como se percebe, não é para andar, é para abanar...
Só lhe faltavam uns acessórios: um suporte para a camera vídeo, e um letreiro para pendurar a dizer “não incomodar”.
Anda aí cada um...
12 mil euros... Uma cama com rodas...
Para abanar.
(Mais uma história do Vosso Miguel Brito, acontecida em Junho/2007)